Veteranos do mercado financeiro estão montando uma operação para capitalizar sobre a nova disputa geopolítica global. A Lazuli Partners, gestora de private equity fundada por ex-sócios da Gávea, uniu-se à BinahResources, da analista de mineração Andrea Weinberg, para criar a Lazuli Binah. O objetivo é levantar fundos de private equity, PIPE e crédito para investir em ativos de mineração na América Latina, com foco predominante no Brasil.

A tese não é uma aposta cíclica em commodities, mas um investimento direto na reconfiguração das cadeias de suprimento globais. À medida que a China restringe a exportação de terras raras e outros minerais essenciais, potências ocidentais buscam desesperadamente fontes alternativas. Segundo reportagem do Brazil Journal, a nova gestora nasce para ser um veículo financeiro nesse tabuleiro, com um pipeline de transações que pode chegar a R$ 2 bilhões nos próximos anos.

A geopolítica como tese de investimento

O nome do jogo é segurança nacional. “Quais são os metais que podem faltar no Ocidente? Basicamente tudo que a China vende hoje”, afirmou Weinberg ao Brazil Journal. A análise transforma a mineração, tradicionalmente vista como uma indústria de capital intensivo e alto risco, em um setor de infraestrutura estratégica. A urgência é visível em movimentos recentes: o governo americano, através do DFC, já destinou US$ 2,5 bilhões para garantir acesso a minerais críticos e assinou um contrato de compra (offtake) com a mina da Serra Verde, em Goiás.

O capital privado segue a mesma trilha. A gigante sul-coreana Posco fechou um pré-acordo com um projeto da Meteoric Resources em Minas Gerais, e diversas mineradoras listadas no Canadá avançam com projetos no país. Para os sócios da Lazuli Binah, este é um momento inédito. “É a primeira vez que vejo essa competição de cheques no Brasil. Até então, a China nadou de braçada aqui sozinha”, disse Weinberg. A gestora, que conta com um ex-diretor da Vale em seu time, já analisa mais de 50 negócios potenciais, incluindo 12 possíveis IPOs.

O potencial e o risco Brasil

O Brasil surge como um “oceano azul” nesta nova corrida, com apenas 28% de seu território devidamente mapeado geologicamente. A indústria de mineração, que hoje representa entre 3% e 5% do PIB, tem potencial para saltar para patamares próximos aos do Chile, onde responde por 15%. Empresas australianas, potências do setor, já veem o país como a próxima grande fronteira de investimentos. A oportunidade é clara, mas o principal obstáculo, como de costume, é doméstico.

O plano do governo de criar uma Política Nacional de Minerais Críticos, em discussão no Senado, gera apreensão. A proposta de submeter operações de fusões, aquisições e contratos de offtake à homologação de um conselho ligado à Presidência da República foi mal recebida pelo setor. A leitura na Lazuli Binah é que, embora o texto atual “não seja bom”, o risco é limitado, pois a expectativa é de que a proposta seja aprimorada durante a tramitação no Senado.

A tensão está posta. De um lado, uma oportunidade histórica para o Brasil se consolidar como fornecedor estratégico para o Ocidente. Do outro, o risco perene de intervenção e instabilidade regulatória. O sucesso de empreitadas como a da Lazuli Binah dependerá menos da geologia e mais de um sinal claro e estável vindo de Brasília.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech