O ex-ministro da Cidadania, Ronaldo Vieira Bento, teria recebido R$ 11 milhões do Banco Master e de empresas ligadas ao conglomerado do empresário Daniel Vorcaro após deixar o governo Jair Bolsonaro. Os valores, revelados pelo Intercept Brasil, constam em documentos fiscais enviados pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado do Senado.
Os pagamentos, realizados ao longo de dois anos, envolveram transferências diretas e aportes em companhias das quais Bento é sócio ou administrador. A maior parte do montante, cerca de R$ 6,2 milhões, foi destinada à Meta Consultoria, aberta em 2023, enquanto R$ 773,3 mil foram pagos como pessoa física. A defesa do ex-ministro sustenta que os valores são remunerações por serviços prestados e foram declarados ao fisco.
A transição para o setor financeiro
Bento chefiou o Ministério da Cidadania entre março e dezembro de 2022, período marcado pela regulamentação do empréstimo consignado para beneficiários do Auxílio Brasil. Pouco tempo depois de encerrar sua passagem pela Esplanada, o ex-ministro assumiu cargos de comando em instituições financeiras vinculadas ao grupo Master, incluindo a presidência do Banco Pleno e a administração da Mettacard.
A Mettacard, focada em crédito consignado para servidores e pensionistas, recebeu R$ 2,98 milhões do Banco Master enquanto Bento atuava como administrador. A trajetória levanta questões sobre o trânsito entre funções públicas de alta responsabilidade regulatória e a ocupação imediata de cargos executivos em setores diretamente impactados por decisões tomadas durante o mandato ministerial.
Intervenção e liquidação extrajudicial
Em fevereiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Pleno, citando falhas graves de liquidez, má gestão e descumprimento de normas regulatórias. A medida incluiu a indisponibilidade de bens de antigos administradores, entre eles Ronaldo Bento, sinalizando um colapso operacional que atraiu a atenção das autoridades monetárias.
Paralelamente, a Mettacard enfrentou restrições em órgãos estaduais, como o governo do Paraná, que suspendeu novos descontos em folha devido a suspeitas de irregularidades e endividamento excessivo de servidores. A atuação da empresa sob a gestão de ex-integrantes do governo federal gerou tensões com entidades sindicais e órgãos de controle, evidenciando os riscos sistêmicos associados a produtos de crédito de alto impacto social.
Tensões regulatórias e políticas
O caso reaquece o debate sobre o uso de políticas públicas de crédito para fins de mobilização política. A auditoria da Controladoria-Geral da União, que identificou R$ 8,4 milhões em descontos indevidos no consignado do Auxílio Brasil, reforça a percepção de que a celeridade na implementação do programa pode ter negligenciado salvaguardas necessárias para proteger o público de baixa renda.
As investigações sobre o grupo de Daniel Vorcaro, no âmbito da Operação Compliance Zero, continuam em curso, apurando suspeitas de fraudes financeiras e uso indevido de estruturas corporativas. Para o mercado, o episódio ilustra a fragilidade da governança em instituições financeiras que operam na intersecção entre o setor público e produtos de crédito de massa.
Perguntas sem respostas na CPI
Até o momento, as tentativas de ouvir Ronaldo Bento em comissões do Congresso não prosperaram. Requerimentos apresentados na CPI do Crime Organizado e na CPMI do INSS foram arquivados, mantendo o ex-ministro longe dos holofotes parlamentares e deixando lacunas sobre a natureza dos serviços prestados ao grupo Master.
O desenrolar das investigações sobre o grupo Master e a liquidação do Banco Pleno permanecem como os principais pontos de observação. Resta saber se o prosseguimento das apurações da Receita Federal e do Banco Central trará novos elementos sobre a compatibilidade das remunerações recebidas e a regularidade das operações financeiras conduzidas pelo ex-ministro.
A revelação dos valores coloca sob escrutínio a ética na transição entre o serviço público e o setor privado, em um mercado onde o crédito consignado se tornou uma ferramenta central de disputa política e financeira. O desfecho dessas investigações poderá definir novos padrões de transparência para o setor. Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





