Em um momento crucial para a história dos Estados Unidos, que se aproxima de seu 250º aniversário, uma grave preocupação paira sobre a segurança e a integridade do sistema democrático. Ex-servidores públicos que atuaram sob diferentes administrações presidenciais expressaram um alerta contundente sobre o que consideram a ameaça mais séria à "governança do povo" desde 1860. A análise aponta para um movimento gradual, mas constante, de autogoverno em direção a um modelo autoritário, fundamentado na erosão da confiança nas eleições, o pilar da democracia.

O histórico recente, especialmente o período pré e pós-eleição presidencial de 2020, é citado como um ponto de inflexão. Naquela ocasião, o então presidente Donald Trump repetidamente semeou dúvidas sobre a legitimidade do processo eleitoral, alegando fraude antes mesmo da contagem dos votos. Após a derrota, suas ações para reverter o resultado foram amplamente documentadas, incluindo pedidos diretos a autoridades estaduais, como o Secretário de Estado da Geórgia, para "encontrar" votos suficientes para alterar o resultado. A recusa de oficiais republicanos, como Brad Raffensperger na Geórgia e funcionários do controle de votos em Michigan, em ceder a pressões para não certificar os resultados, é vista como um ato de resistência crucial. O ápice dessa estratégia foi o incitamento de apoiadores a invadir o Capitólio em 6 de janeiro de 2021, com o objetivo de impedir a certificação oficial dos votos pelo Congresso e pelo Vice-Presidente Mike Pence. A coragem de Pence em priorizar o dever constitucional sobre a lealdade partidária é creditada por evitar o primeiro colapso eleitoral na história americana.

Ameaças em Curso e o Padrão Comportamental

O temor atual, segundo os ex-servidores, é que o padrão de comportamento observado em 2020 se repita e se intensifique nas eleições de 2026. As ações recentes da administração Trump, detalhadas nos últimos 18 meses, reforçam essa apreensão. Entre elas, destacam-se o perdão ou a comutação de penas para cerca de 1.500 pessoas envolvidas no ataque ao Capitólio, incluindo condenados por conspiração sediciosa. Além disso, uma significativa debandada de funcionários federais com papéis na garantia de eleições válidas tem sido observada, com substituições por indivíduos que ativamente trabalharam para reverter os resultados de 2020. A direção do FBI para apreender cédulas da eleição de 2020 no Condado de Fulton, Geórgia, por um diretor de "segurança e integridade eleitoral" conhecido por negar a validade das eleições, levanta sérias questões sobre a base legal e a intenção por trás de tais ações, especialmente quando o Departamento de Justiça ainda não apresentou evidências concretas de fraude.

Mecanismos de Controle e Centralização do Poder

Outros incidentes recentes, como a obtenção de imagens de cédulas em Maricopa County, Arizona, e a exigência de cédulas da eleição de 2024 no Condado de Wayne, Michigan, sob alegações de fraude em 2020, indicam uma estratégia de pressão contínua sobre processos eleitorais em estados-chave. A busca no escritório de um grupo de registro de eleitores em Ohio sem mandado e as investigações de fraude eleitoral anunciadas em Los Angeles após as primárias da Califórnia, com a intenção de indiciar pessoas assim que os votos forem certificados, sugerem um esforço coordenado para criar um ambiente de incerteza e desconfiança. A assinatura de uma ordem executiva que reivindica autoridade para regular eleições federais, embora bloqueada por cortes federais e a Suprema Corte, demonstra a intenção de centralizar o controle eleitoral, contrariando a divisão de poderes estabelecida pela Constituição.

Implicações para a Democracia e o Papel dos Cidadãos

Essas ações, vistas em conjunto, pintam um quadro de tentativas implacáveis de transferir a autoridade sobre o processo eleitoral dos estados para o governo federal. A recusa em distribuir votos por correio em estados que não compartilham seus registros de eleitores, endossada pelo próprio Secretário de Correios, é mais um exemplo dessa pressão. A implicação mais profunda é a ameaça à capacidade dos americanos de se autogovernarem. Se a confiança nas eleições for irremediavelmente abalada, o poder coletivo do povo será silenciado, e o país poderá regredir ao modelo autoritário de governança, onde o poder emana de um único indivíduo e não da vontade popular. A defesa da liberdade fundamental de escolher quem nos governa torna-se, portanto, um dever cívico para todos.

Para reverter essa trajetória, os ex-servidores defendem que o Congresso deve reafirmar seus poderes constitucionais, revisando e rejeitando ordens executivas problemáticas. Oficiais eleitorais em todos os níveis precisam estar preparados para recusar demandas ilegais que visem subverter resultados. Em última análise, a responsabilidade recai também sobre os cidadãos, que devem defender ativamente o direito de escolher seus governantes, seja em sermões, salas de aula, no trabalho ou em conversas cotidianas. A admoestação de Benjamin Franklin, "Uma República, se você puder mantê-la", ressoa com urgência, questionando se a nação está disposta e capaz de preservar sua estrutura democrática.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune