Soldados do Comando Multi-Domínio do Exército dos EUA na Europa realizaram o primeiro disparo do sistema de mísseis Typhon, um passo crucial para potencialmente adicionar uma nova capacidade de ataque de longo alcance ao teatro europeu. O teste ocorreu na Estação de Armas Aéreas da Marinha China Lake, na Califórnia, no final de setembro. Este sistema móvel, também conhecido como Capacidade de Médio Alcance (Mid-Range Capability - MRC), é versátil e pode lançar mísseis de cruzeiro Tomahawk e mísseis Standard Missile-6 (SM-6), conferindo ao Exército opções para atingir alvos a distâncias maiores.

O Typhon já foi implantado no Indo-Pacífico, onde sua presença tem gerado descontentamento na China. A capacidade de realizar este teste em solo americano, especificamente na Califórnia, marca a terceira vez que o Typhon é disparado nos Estados Unidos continentais. A unidade responsável pelo teste foi o 3º Batalhão do 12º Regimento de Artilharia de Campo, uma unidade de fogos de precisão de longo alcance dentro do Comando Multi-Domínio - Europa. Esses militares passaram por cinco semanas de treinamento intensivo para dominar a operação e manutenção do sistema.

Um Novo Capítulo para o Poder de Fogo Americano

O desenvolvimento e teste do sistema Typhon representam uma resposta estratégica dos Estados Unidos às mudanças no cenário geopolítico global, especialmente após a retirada do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF) em 2019. Este tratado, firmado em 1987, proibia mísseis balísticos e de cruzeiro lançados do solo, nucleares e convencionais, com alcances entre 500 e 5.000 quilômetros. A saída do acordo permitiu aos EUA explorar novas capacidades de armamento para preencher lacunas estratégicas, particularmente em resposta às preocupações com o desenvolvimento de mísseis pela Rússia.

Brigadeiro-General Steven Carpenter, chefe do Comando Multi-Domínio - Europa, destacou a importância do Typhon para a doutrina militar americana. "O Typhon me dá mais opções como um comandante de fogos de todos os domínios para ameaçar alvos críticos a maior alcance e cria oportunidades para a Força Conjunta", afirmou. Ele acrescentou que o teste bem-sucedido "demonstra a capacidade de nossos Soldados de transformar um sistema recém-implantado em uma capacidade de combate credível que fortalece a dissuasão e, se necessário, nos ajuda a vencer". A capacidade de ataque de longo alcance é vista como essencial para dissuadir potenciais adversários e projetar poder de forma eficaz.

A Versatilidade do Typhon: Do Pacífico à Europa

A capacidade do Typhon de lançar tanto mísseis de cruzeiro Tomahawk quanto mísseis SM-6 confere uma flexibilidade operacional significativa. O Tomahawk é conhecido por sua capacidade de ataque terrestre de precisão, enquanto o SM-6 é um míssil multifuncional que pode ser usado contra mísseis balísticos, aeronaves e alvos de superfície. Essa dualidade permite que o sistema se adapte a uma variedade de cenários de combate e ameaças.

A implantação do Typhon no Indo-Pacífico, iniciada em abril de 2024 nas Filipinas, já causou reações significativas da China. Pequim criticou a presença do sistema na região, classificando-a como uma "jogada para virar a roda da história" que ameaça a segurança regional e incita o confronto geopolítico. A China, por sua vez, possui um considerável arsenal de mísseis de médio e curto alcance que representam uma ameaça a bases americanas e aliadas. A presença persistente do Typhon no Pacífico, mantida por cerca de 30 meses consecutivos, segundo o Major-General Bernard Harrington, chefe da 7ª Divisão de Infantaria do Comando Multi-Domínio - Pacífico, tem sido fundamental para o aprendizado operacional e a cooperação com aliados na região.

Implicações para a Segurança Europeia e Global

A introdução do Typhon no inventário europeu, após sua comprovada utilidade no Pacífico, sinaliza uma reconfiguração das prioridades de defesa dos EUA. A capacidade de atingir alvos a distâncias que antes eram inacessíveis para as forças terrestres americanas na Europa pode alterar o cálculo estratégico de potenciais adversários no continente. A presença de um sistema de médio alcance que não está sujeito às restrições do antigo tratado INF oferece uma nova dimensão de dissuasão.

O teste na Califórnia, conduzido por tropas treinadas para o ambiente europeu, sugere um passo concreto para a integração do Typhon nas operações futuras na Europa. A capacidade de mobilidade do sistema, montado em plataformas terrestres, permite que ele seja rapidamente reposicionado, aumentando sua resiliência e dificultando sua neutralização. Isso é particularmente relevante em um continente com a complexidade geográfica e a densidade de infraestrutura da Europa.

Perguntas em Aberto e o Futuro da Dissuasão

Embora o teste do Typhon represente um avanço significativo, algumas questões permanecem em aberto quanto à sua plena integração e impacto estratégico na Europa. A logística de manutenção e o suporte contínuo para um sistema de mísseis de médio alcance em um teatro de operações potencialmente dinâmico exigirão um planejamento robusto.

Além disso, a resposta de outros atores regionais, além da China, à crescente capacidade de ataque de longo alcance dos EUA, tanto no Pacífico quanto na Europa, ainda precisa ser observada. A dinâmica de dissuasão e a corrida armamentista que podem ser desencadeadas por tais avanços tecnológicos continuam a ser um campo de análise em evolução para estrategistas militares e observadores internacionais.

A capacidade recém-testada do Typhon na Califórnia, embora focada em tropas europeias, sublinha a estratégia americana de projetar poder de forma flexível em múltiplos domínios e geografias, adaptando-se a um cenário de segurança global cada vez mais complexo e competitivo. O sucesso deste teste é um indicativo do compromisso dos EUA em manter uma vantagem tecnológica e estratégica.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider