A economia da China apresentou um crescimento de 4,5% no terceiro trimestre, em comparação com o mesmo período do ano anterior. O resultado, que acelerou em relação aos 4,3% do trimestre anterior, foi impulsionado principalmente por um desempenho robusto das exportações, aproximando o país de sua meta oficial de crescimento anual. Contudo, especialistas alertam que essa dependência de mercados externos para sustentar o crescimento é insustentável e pode se tornar um "arrasto para o crescimento mundial", segundo Eswar Prasad, professor de economia e política comercial da Cornell University.
O enigma do crescimento chinês
Embora o número oficial de 4,5% possa parecer positivo, economistas como Max Zenglein, do The Conference Board, apontam que essa métrica se tornou um indicador cada vez menos confiável da saúde geral da economia chinesa. O crescimento esconde "disparidades crescentes entre indústrias, regiões e famílias", o que sugere que o modelo de crescimento chinês enfrenta desafios internos significativos. A demanda doméstica, por exemplo, tem sido afetada por uma crise imobiliária prolongada que prejudicou a riqueza das famílias e incentivou a poupança. Nesse cenário, as exportações emergiram como um dos poucos pontos fortes, com a China a caminho de superar seu recorde de superávit comercial de US$ 1,2 trilhão. Em setembro, as exportações chinesas cresceram 36%, e o superávit acumulado entre janeiro e setembro já atingiu US$ 938 bilhões.
A estratégia de exportação e suas consequências
O impulso nas exportações é alimentado, em parte, pela capacidade de produção doméstica em massa, especialmente em setores como energia solar e veículos elétricos, que recebem subsídios governamentais. Esses bens, muitas vezes precificados de forma competitiva, são direcionados para mercados globais em um momento de consumo interno enfraquecido. Setores de alta tecnologia, como semicondutores e veículos, incluindo elétricos e híbridos, têm sido motores desse crescimento. No entanto, essa estratégia de crescimento orientada para a exportação, com forte componente tecnológico, tem demonstrado criar poucas oportunidades de emprego e ganhos de renda amplos, enquanto os riscos de deslocamento de mão de obra pela inteligência artificial continuam a crescer, conforme aponta Ecaterina Bigos, da BNP Paribas Asset Management.
Pressão crescente de parceiros comerciais
O superávit comercial persistente e volumoso da China tem gerado atritos com seus principais parceiros comerciais. A União Europeia, por exemplo, que registra um déficit diário de mais de US$ 1,1 bilhão com a China, tem manifestado impaciência. Acordos recentes, como o que visa reduzir pela metade as importações de veículos híbridos chineses nos próximos anos, indicam a busca por reequilíbrio. Gary Ng, do Natixis, sugere que a China pode continuar a vender produtos "made by China" no longo prazo, evitando tarifas mais amplas. Contudo, a resolução rápida desses desequilíbrios comerciais é vista como improvável, segundo Lynn Song, do ING.
Perguntas em aberto e perspectivas futuras
O debate sobre a desvalorização do yuan chinês como fator contribuinte para o superávit comercial continua, apesar das negativas do banco central chinês. Especialistas preveem "resistência contínua, protecionismo crescente e pressão persistente de economias globais para proteger suas indústrias e empregos", especialmente em setores de alto valor. Pequim insiste que não busca um superávit comercial expressivo, e o governador do banco central, Pan Gongsheng, afirmou o compromisso da China em expandir a demanda doméstica e trabalhar com países com déficits comerciais. A questão central permanece: como a China equilibrará seu crescimento econômico com as demandas globais e a sustentabilidade de seu modelo exportador?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





