A exposição "Costume Art" no Metropolitan Museum of Art, apesar de seu título direto, tem se mostrado confusa e, para muitos críticos, problemática. A proposta de justapor peças de vestuário com obras de arte busca revelar a "relação inerente entre roupa e corpo", segundo a descrição oficial do museu. A iniciativa visa estabelecer o Instituto de Figurino como o centro vital da coleção do Met, demonstrando a presença do corpo vestido através de diversas tipologias corporais, como "Corpo Nu e Despido", "Corpo Anatômico", "Corpo Abstrato", "Corpo que Envelhece", "Corpo Mortal" e "Corpo Epidérmico".
A curadoria, liderada por Andrew Bolton, que atua como Curador-Chefe do Instituto de Figurino, buscou criar experiências imersivas onde a arte se torna "corporificada" através da moda. Em alguns casos, como a união de vestidos de estilo grego com vasos da Grécia Antiga, essa abordagem pode funcionar, permitindo ao visitante visualizar a conexão entre os objetos. No entanto, muitas outras associações apresentadas na exposição parecem forçadas, superficiais ou questionáveis, levantando dúvidas sobre os critérios de seleção e a profundidade da análise proposta.
Curadoria Superficial e Exclusões Questionáveis
Um dos pontos de crítica reside na escolha de algumas justaposições. O exemplo citado de peças do designer Chet Lo, que incluiu descrições em áudio e amostras de tecido para pessoas com deficiência visual em sua coleção Primavera 2025, ao lado da pintura "A Refeição do Cego" (1903) de Picasso, é visto como uma conexão tênue. Da mesma forma, um ouvido votivo em calcário com a inscrição "Pertenci a uma pessoa surda" (século IV–III a.C.) é emparelhado com um conjunto "Dismorfia Surda" (2023) do designer Justin Dougan-Leblanc, que é surdo. A questão levantada é: se a inclusão é um pilar, por que não destacar artistas contemporâneos que vivem com cegueira e surdez, como Emilie Louise Gossiaux e Christine Sun Kim, em vez de associações que podem parecer mais performáticas do que substantivas?
Além disso, a exposição apresenta um descompasso em seções como "Corpo Grávido" e "Corpo Recuperado", que incluem obras de homens cisgênero, mesmo quando o tema se refere a experiências corporais tradicionalmente associadas a mulheres. A seção "Corpo Recuperado", por exemplo, combina o traje de amarração "Twisted" (2026) de Michaela Stark com uma fotografia de Hans Bellmer, apresentando uma de suas bonecas sem rosto e sem membros. Essa escolha, para alguns observadores, pode diluir o foco em discussões sobre o corpo feminino e suas representações, especialmente quando outras artistas com perspectivas relevantes poderiam ter sido incluídas.
A Construção de um Cânone de Moda
A forma como a exposição molda um cânone de moda é outro ponto de discórdia. Ao selecionar peças e associá-las a obras de arte, o Met não está apenas exibindo objetos, mas também definindo o que é considerado relevante e digno de atenção histórica e artística. A crítica sugere que esse cânone pode estar sendo construído menos com base na relevância histórica objetiva e mais de acordo com os interesses e perspectivas daqueles que detêm o poder curatorial dentro da instituição. A inclusão de designers contemporâneos, embora possa trazer novidade, levanta a questão se essas escolhas refletem uma expansão genuína do campo da história da moda ou uma adaptação a tendências passageiras e à busca por relevância midiática.
A curadoria parece priorizar associações que geram impacto visual imediato ou que se alinham a narrativas pré-existentes, em detrimento de uma análise mais profunda e contextualizada das peças e de seus criadores. A proximidade com o espaço que antes abrigava uma loja de presentes, e a observação de "selfies constantes" no display Lo-Picasso, podem indicar uma tendência a priorizar a experiência instagramável sobre a contemplação e o aprendizado aprofundado, um dilema comum em instituições culturais contemporâneas.
Implicações para a História da Arte e da Moda
As implicações dessa abordagem curatorial para a história da arte e da moda são significativas. Ao apresentar uma narrativa que pode ser interpretada como superficial ou tendenciosa, o Met corre o risco de solidificar visões limitadas sobre a relação entre vestuário e arte. Para os estudiosos e entusiastas, a exposição pode levantar mais perguntas do que respostas sobre os critérios de autenticidade, relevância e representatividade no campo da moda. A decisão de como e quem é incluído em exposições de grande porte como esta tem um impacto direto na forma como o público percebe e entende a história cultural.
Para o ecossistema artístico e de moda no Brasil, a discussão em torno de "Costume Art" serve como um lembrete da importância de uma curadoria reflexiva e inclusiva. A necessidade de questionar quem define o cânone e com base em quais critérios é universal. Instituições brasileiras, ao desenvolverem suas próprias exposições, podem aprender com as críticas dirigidas ao Met, buscando sempre uma abordagem que valorize a diversidade de vozes e a profundidade histórica, sem ceder a modismos ou a interesses que obscureçam o valor intrínseco das obras e de seus criadores.
Perguntas em Aberto e o Futuro da Curadoria
O que "Costume Art" deixa em aberto é a verdadeira intenção por trás de suas associações, que parecem oscilar entre o acadêmico e o comercial. A exposição falha em apresentar uma tese clara e convincente, deixando o visitante a ponderar sobre a validade das conexões propostas. A falta de clareza na argumentação curatorial pode levar a uma interpretação de que a exposição prioriza o espetáculo sobre a substância, uma tendência que pode comprometer a integridade do museu a longo prazo. A questão central permanece: a moda, quando exibida em um contexto de arte, deve ser tratada como um objeto de estudo histórico ou como uma ferramenta para reinterpretar a arte existente?
O futuro da curadoria de moda em grandes museus dependerá da capacidade dessas instituições de equilibrar a atração do público com a responsabilidade acadêmica. A necessidade de engajar novas audiências não deve comprometer a rigorosidade das pesquisas e a representação justa das diversas histórias que compõem o campo. O Met, com sua influência global, tem a oportunidade de liderar pelo exemplo, mas "Costume Art" parece ter perdido essa chance, optando por um caminho que, para muitos, é um mau presságio para a forma como a moda será historicamente avaliada e apresentada.
"Costume Art" no Met, portanto, não apenas confunde, mas também levanta sérias questões sobre a autoridade curatorial e a construção de narrativas históricas na arte e na moda. A exposição convida a uma reflexão crítica sobre os critérios que definem o que é considerado arte e o que é relegado a uma posição secundária, ou mesmo ignorado, nas coleções de instituições tão influentes.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic





