Talayuela, um município na província de Cáceres com quase 7.500 habitantes, viu este ano o fim de um programa educacional que vigorava há duas décadas: a chegada de professores de árabe vindos de Marrocos. O Programa de Ensino de Língua Árabe e Cultura Marroquina (PLACM), amparado por um convênio cultural de 1980, era voluntário, ministrado fora do horário letivo e integralmente pago pela Fundação Hassan II para os Marroquinos Residentes no Exterior. Os docentes não pertenciam ao sistema público espanhol, mas sim à embaixada marroquina.
Este programa, que já foi aplicado em diversas comunidades autônomas espanholas, funcionava há 20 anos em dois centros de Extremadura: o CEIP Gonzalo Encabo e o CEIP Juan Güell, totalizando mais de 200 alunos matriculados. A supressão do PLACM foi uma das exigências do partido Vox para apoiar a investidura de María Guardiola como presidente da Extremadura. O acordo político enquadrou a medida na rejeição a programas considerados de "adoctrinamento ou ingerência estrangeira", estabelecendo sua eliminação dos centros educacionais da região.
O Pacto e a Manobra
O acordo entre PP e Vox em Extremadura determinou o fim do programa, mas as escolas tentaram uma solução de última hora. Antes do início do ano letivo, os dois colégios negociaram com a Consejería de Educação e o Ayuntamiento local — também governado pela coalizão PP-Vox — para remover as 8 horas semanais de árabe do currículo escolar. A proposta era manter essas aulas em salas municipais próximas, evitando assim o descumprimento direto do acordo político. No entanto, o Ministério da Educação rejeitou essa manobra, argumentando que o convênio bilateral exige que tais atividades e sua fiscalização ocorram dentro dos centros docentes.
Em sua resposta por escrito, o próprio Ministério reconheceu que a supressão priva os alunos de "conhecer suas origens linguísticas" e dificulta sua integração social. Contudo, considerou que a solução proposta pela região buscava justificar a decisão ministerial a posteriori e acabava por estigmatizar os alunos marroquinos em relação aos demais.
Talayuela: Um Caso de Integração
Talayuela é um caso particular pela sua demografia. Cerca de um quarto de sua população nasceu em Marrocos, uma proporção que aumentou significativamente a partir de 1991, com a chegada de trabalhadores temporários para a colheita do tabaco. Isso faz de Talayuela um dos municípios com maior peso de população marroquina em toda a Espanha. Luis Alfonso Corrales, diretor do CEIP Gonzalo Encabo e residente no local há 25 anos, relata que, apesar das dificuldades iniciais e da formação de guetos, a convivência melhorou consideravelmente, com a mesquita desempenhando um papel importante na integração.
Corrales compara a situação com a ajuda que a Espanha solicita em Ceuta, enfatizando a necessidade de manter esses professores para a comunidade. "Nós precisamos desses professores", afirma, lamentando a partida dos docentes com os quais a escola contava há duas décadas. Atualmente, cerca de 60% do corpo discente no Gonzalo Encabo é de origem marroquina.
Implicações e Paralelos
A decisão em Extremadura não é isolada, mas sim o episódio mais recente de uma onda que começou em Madri no ano passado e continuou em Aragão e Andaluzia. Em todos esses casos, as comunidades são governadas pelo PP com o apoio ou pressão do Vox. O argumento comum é a falta de controle sobre o corpo docente, que é pago e formado por Marrocos. No entanto, chama a atenção que Madri mantenha programas semelhantes para alunos de origem búlgara, portuguesa, romena e polonesa, financiados por seus respectivos países sob esquemas educativos análogos.
A medida levanta questões sobre o tratamento diferenciado e o que realmente motiva a supressão desses programas. A justificativa de "ingerência estrangeira" parece seletiva, especialmente quando comparada à manutenção de outros programas de imigração.
Perguntas em Aberto
A supressão do PLACM em Extremadura, e em outras regiões, deixa em aberto diversas questões. Qual será o impacto a longo prazo na integração dos jovens de origem marroquina? A decisão reflete uma política consistente de educação intercultural ou uma agenda política específica? E como o Ministério da Educação e as comunidades autônomas responderão à pressão por manter programas culturais e linguísticos para outras nacionalidades?
A comunidade educativa em Talayuela lamenta a perda, vendo-a como um retrocesso na integração e no reconhecimento da diversidade cultural. A esperança reside na possibilidade de futuras negociações ou na reavaliação da política governamental, mas, por ora, os professores marroquinos não retornarão aos centros.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





