Fady Joudah, médico e poeta palestino radicado nos Estados Unidos, apresenta em "Exhibit G" uma obra singular que transcende as formas tradicionais de expressão artística. Reunida na diáspora, mas intrinsecamente ligada a Gaza, esta coleção multimídia é um testemunho da vida palestina sob o que o autor descreve como genocídio. "Exhibit G" mergulha na meditação poética de Joudah sobre a linguagem e o tempo, elementos fundamentais da existência humana, que se veem despojados de sua estabilidade em meio à devastação. Se trabalhos anteriores de Joudah exploravam o silêncio e seus resquícios, "Exhibit G" emerge como um pronunciamento, uma resposta à impossibilidade de garantir a sobrevivência de seu povo no futuro. A obra adota uma forma polifônica, utilizando a linguagem de Gaza como veículo para expressar a resiliência diante da persistência do conflito.
Um Diálogo Multiforme Contra o Esquecimento
A coleção é fruto de uma colaboração que abrange poetas palestinos escrevendo de e sobre Gaza, fotógrafos gazenses documentando o trabalho de uma cozinha comunitária local, e o próprio Joudah. "Exhibit G" responde à necessidade de uma renovada poética em um momento em que a Palestina luta para perdurar, tanto em inglês quanto em árabe. Através de poemas, ensaios, fotografias e desenhos, a obra reúne as múltiplas mãos, rostos e odes de um povo que se alimenta, se enterra e se nomeia enquanto o genocídio, descrito como persistente e implacável, se estende desde a Nakba de 1948 até os horrores atuais. A letra "G", que abre a coleção, torna-se um símbolo multifacetado: o "G" de genocídio, o "G" de Gaza em inglês. Ela se transforma em um horizonte desenterrado, uma gramática da ghurbah (exílio ou alienação em árabe) e ghurūb (pôr do sol ou declínio em árabe). O sol que nasce e se põe incessantemente no Ocidente, segundo a narrativa, recusa-se a iluminar as margens palestinas, forçando a paisagem e o tempo a uma realidade de escuridão perpétua.
A Linguagem Como Resistência e Horizonte
"Exhibit G" não se propõe a ser um documento de museu, exposição ou caso criminal. Em vez disso, a obra destaca a resiliência incessante de Gaza, contrapondo-se à efêmera "exibição" do sofrimento palestino sob a ótica ocidental. O resultado é uma jornada literária através de versos engajados, desprovida de uma saída clara para o leitor. Em meio à realidade do genocídio, Joudah e seus colaboradores constroem uma poética palestina a partir das exigências contínuas de um tempo estável, de uma linhagem e de uma linguagem agora destruídas. A obra evoca poetas ancestrais da herança árabe, como Labīd, para lembrar que o tempo, apesar de tudo, está sempre à mão. A guerra de impérios, a batalha temporal entre "pré-" e "pós-", é uma luta que acompanha os palestinos desde antes de terem consciência dela. A poética de Joudah caminha por uma linha do tempo igualmente desfigurada por sua própria passagem, onde a terra de Labīd, em sua antiguidade, luta para se expressar através do silêncio imposto pelo Ocidente. A obra questiona a impossibilidade de haver oxigênio para os mortos e a subsequente profanação dos corpos, lançados nas ruas quando a própria terra não tem lábios para falar.
O Triunfo Sobre a Aniquilação
O título "Truth is Never Finished" (A Verdade Nunca Termina) ecoa nas fissuras desta "Exibição", onde pessoas e meses, sagrados e cotidianos, encontram seu espaço. A coleção se inicia com a declaração: "E um mundo que queremos começar começa: Transformei meu amor por você em arte, para que eu possa triunfar sobre a morte". Gaza emerge, então, como uma linguagem da Palestina em si mesma, um novo começo, a última e única expressão do "G" singular. Engajados em uma tradição poética cujas palavras agora filtram entre as bombas israelenses e sorrisos condenados a viver sob os escombros, Joudah e seus parceiros em Gaza "triunfam" contra a tentativa global de confinar a Palestina ao apagamento. Aqui, não apenas aqueles que escrevem em outras terras, como o próprio Joudah, precisam confrontar sua distância das ruínas acumuladas, mas aqueles sob as bombas devem também atravessar os intermináveis checkpoints – materiais e linguísticos – que os separam da Gaza que conheceram. O "Exhibit" fala, assim, na linguagem da Nakba – do genocídio em curso, em toda parte e repetidamente.
Perguntas em Aberto Diante da Devastação
À medida que a coleção serpenteia entre vozes e momentos em Gaza, Joudah luta contra a finalidade do genocídio através do "O que ainda?" de seu poema homônimo, "Exhibit G: Surviving Image". A obra busca o que resta de Gaza através da mistura torturante de escombros em som e silêncio, com a sobrevivência trazida pelo "G" gutural preso em nossas gargantas. Imagens de Gaza olham de volta, incertas, não necessariamente representações dos poemas que encontram. Em uma página, a fotografia de uma mulher com um sorriso incompleto acompanha um verso que narra a perda de familiares em decorrência da violência israelense. O que sobrevive para Salaam, nome da mulher retratada, não é ela mesma, mas o que "Israel matou". Os dois-pontos de Joudah recusam o fechamento e complicam a forma linear do tempo e do espaço. A gramática intermediária do "G" perdura no "decidiu" de uma escolha passada de "começar uma cozinha comunitária" pela vida. É sustentada também nos rostos e sorrisos das fotografias, mas não são as imagens "que você repostou". O "G", Gaza, onde "não pôde ser" torna-se a devastação de corpos jamais recuperados. As ruínas não feitas do futuro chegam em "seria / Enterrado", onde a dignidade mais simples se torna um desejo distante. "Salaam" continua, em meio aos ventos, ao destino traçado e à juventude, respirando novamente contra um fim iminente, conhecido apenas na aniquilação. "Durante os anos de aniquilação", Gaza chega como "Um fascículo: em paralelo, em esfíncteres, convergente, ou penado". O fascículo, como locus de organização estrutural, da poesia, de suas linhas; da fome, de suas linhas; da tradição, de suas linhas; das bombas, da reordenação imperial do mundo em linhagens sob imperativos assassinos; e medicamente, de nervos, o interior tornado exterior, agrupado em um só, junto. Em "Exhibit G", o médico-poeta mobiliza o fascículo para mapear as dimensões temporais e espaciais da união palestina – uma coletividade constituída sob, e repetidamente fraturada por, um mundo que pressupõe a extermínio da Palestina. É o ponto de encontro pulsante de uma terra da qual Joudah se origina, agora apenas alcançada através de seu sobrenome nas listas de mártires. É a Palestina em "G", um povo forçado aos sons implacavelmente coerentes de Gaza como Genocídio e Gramática e Ghurūb e Ghurbah: Ficar em fila e gritar, implorar, uivar, sorrir de orelha a orelha, sentir, sentir, sentir. O tempo antes e depois da comida é alegria dentro do internamento. Crianças vestidas com suas melhores roupas e sapatos restantes. Seus pijamas favoritos. Ou o único que sobrou. "Sentir" o "Tempo antes e depois da comida", outra medida de vida, maculada. "Antes e depois da comida" não segue mais os períodos antes do amanhecer e depois do anoitecer, a linha do horizonte não mais visível sob as bombas. A linguagem é sentida através da queda e ascensão que persiste como não deveria: Que queda livre e que ascensão. O que se acumula nas memórias das crianças é armazenado em seus corpos. O que está armazenado em seus corpos é um começo de amor armazenado no tempo. Demasiados palestinos são um começo de amor armazenado no tempo. A poética de Joudah exige um recurso constante de retorno. "Começos" são múltiplos e, como Joudah nos diz, são inevitavelmente palestinos. O poema tenta desesperadamente tornar real o que não pode ser. Outro começo chega: um "o" pendurado, independente, raramente separado de seu parceiro nominal em árabe, encontra-se na borda sobrevivente do inglês imperial. Essa língua cospe ruído audível apenas para aqueles forçados aos hábitos mais cruéis do mundo: Os drones acima, o ruído branco do genocídio. O genocídio em Gaza torna-se os sons do céu implacável acima. O povo de Gaza senta-se na borda pendente do "O" de Joudah, enquanto o artigo definido pende em direção a um céu tornado inteiro não por aviões comerciais e ventiladores de teto ociosos, mas por drones de morte tamborilante: Outro marcador: tornar-se o emblema do chamado da humanidade a todos os povos. A luz de um horizonte palestino negado aqui desvanece, e com ela, O aleph de almas esmaecidas, que o bom Senhor o proteja dele, vê a resistência à injustiça como a causa da ruína, e não a injustiça. Joudah marca o tempo do genocídio e o genocídio do tempo através da linguagem em que as ruínas chegam primeiro. A invocação do "aleph" hebraico marca o deslocamento da língua árabe do poeta. O "alif" árabe, se transliterado para o inglês, não pode – não vai – engajar-se com a destruição desenfreada. Os escombros não são seus. O "alif" árabe primeiro recorda e se estende para fora: abre o alfabeto e faz perguntas, tenta encontrar as letras que juntas podem articular o "Eu" de Joudah, raramente bem-vindo em toda a coleção. O "aleph" hebraico, portanto, inicia a eventual morte do poema em forma e prática, uma linguagem esquelética em oposição à herança poética árabe de Gaza. O "Eu" palestino só pode ganhar entrada no espaço linear da vida poética uma vez morto, reunido pelo hebraico que preparou a contínua Nakba. "E você repostou", diz Joudah. O "alif" árabe não pode ser o sopro, O ar incinerado que o povo respira. E ouvimos os gritos de Shaban al-Dalou. O genocídio de Israel torce Gaza nos incineradores do holocausto, nossas vias aéreas dominadas por linguagem criada contra a vida palestina. As bombas de Israel consomem o jovem de dezenove anos, respirando sua própria pele enquanto queima com sua cama. Uma postagem em mídia social distribui a morte grotesca de Shaban antes que ele receba seu diploma de engenharia. "Exhibit G" busca recuperar uma cronologia alternativa não inibida pelo escuro ghurūb do Ocidente sobre Gaza, uma ordem lexical que honra a Palestina antes de seu abandono injusto. A própria Exibição se abre para as abrasões da linguagem – de um inglês cujos detentores decididos se recusam a "reconhecer o que declararam na verdade material em que se tornou". Joudah se aproxima dos escombros e da realidade que eles intimam em uma poesia ilimitada por forma; ele entende o inglês em que escreve como o braço discursivo de uma política que proíbe a Palestina do "todo" e da "humanidade" que ela de outra forma reivindica. Rawan Hussein, uma poeta palestina de Gaza, consolida a Exibição neste sistema searamente idiomático: seus poemas trazem outra voz, numerada de um a cinco. O primeiro nome de Rawan corre diretamente sob o título; Hussein, seu sobrenome, segue, unido a Gaza por uma vírgula tensa; e então, Rawan Hussein, Gaza – povo e lugar – quebram no tempo, presos a outra vírgula que leva a 2021. Joudah nos lembra de engajar os sinais que entregam nossa destruição consistente. Lembramos de 2021, o ano da "Intifada da Unidade" recebida pelas tentativas incessantes de Israel de apagar Gaza, Palestina. Vemos a página doze no final do Poema nº 1 de 5. Contamos os anos. Pare de contar, ela nos diz e chegamos ao tempo. Olhamos para trás através de doze anos mais cruéis antes do nosso hoje, 2014. 2014 significa números não no calendário. Lemos a cruel nomeação de Israel para aquele ano na casualmente letal "Batalha do Grão Murcho", clara em sua proclamação de fome forçada, um genocídio gradual iniciado muito antes da formação da Cozinha Comunitária de Gaza. O horizonte do qual o sol deveria nascer queima ao atingir Hussein e Joudah de Gaza 2014, Gaza 2021, Gaza 2026. A assinatura de Hussein aparece em itálico antes da primeira fala do poema, um "takhallus" invertido e desterritorializado forçado das assinaturas da tradição poética árabe entregues no final de um poema, após o qual se pode deixar o verso. Não saímos da poesia de Rawan. "Amanheceu sobre nossas cabeças", escreve Rawan Hussein: O tempo se pôs de lado e os lugares fecharam os olhos, como uma garota com palavras que cinzentam atrás de suas pálpebras. Tetos desmoronaram cachoeiras de pedra, e sob os escombros a última imagem percebida paira: uma pintura final esculpida em nossos rostos. Sozinhos envelhecemos esta noite tecemos horas e as vestimos, engolimos o terror que escorre pelas bocas de nossos filhos. Alguém devorará nossos lábios enferrujados. As palavras de Hussein lutam contra a consistência fatalista que persiste na marcha desorientadora da Exibição pela Palestina em ruínas. Elas retornam aos "lábios" silenciosos que guiam "Truth is Never Finished" de Joudah, aqui "enferrujados" como escombros em vez de deixados na "terra". O poema de Hussein engaja a estruturação da realidade temporal e material contra a vida palestina, agora com um tom dolorosamente moderno. Do outro lado da página encontramos outro número, sessenta e sete; ele nos leva à batida de um relógio quebrado, nossa entrada no tempo palestino. Sessenta e sete carrega a imagem de um homem em movimento: ele primeiro caminha para longe e depois em nossa direção, novamente. Lembramos de 1967, a Naksa, o "contratempo" na liberação já deixado para trás pelo relógio que marca o tempo em inglês. "O corpo palestino cria a zona de sobreposição entre árabe e inglês. Nessa zona, o corpo torna o alfabeto analfabeto", escreve Joudah, ao sairmos de "Exhibit G". Gaza, como linguagem, traz à existência o único caminho através de fronteiras fabricadas, construídas a partir de letras e muros e calendários e relógios e narrativas que tentam contê-la, de uma vez por todas. A Palestina, ainda assim, é o caminho de volta: para casa, para o retorno, para a herança poética árabe que se ergue novamente das ruínas de Gaza. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





