A trajetória da Farm Rio, que começou em 1997 em um stand na Babilônia Feira Hype, no Rio de Janeiro, atingiu um novo patamar de relevância estratégica. A marca, fundada pela contadora Kátia Barros e pelo sócio Marcello Bastos, consolidou-se como um ícone da estética carioca e hoje opera globalmente, com presença em cidades como Nova York, Los Angeles, Paris e Londres. Recentemente, a marca tornou-se o centro de uma discussão sobre valorização corporativa, com analistas do JP Morgan estimando que o ativo possa valer entre R$ 4,4 bilhões e R$ 5,5 bilhões.

Este valuation, que supera o valor de mercado atual da Azzas 2154 (AZZA3) — holding formada pela fusão do Grupo Soma com a Arezzo&Co —, coloca a Farm Rio em uma posição singular. Segundo reportagem do Money Times, a empresa contratou o Morgan Stanley para avaliar estratégias para o ativo, incluindo uma possível venda internacional, em um movimento que busca destravar valor para os acionistas diante de pressões internas na governança da companhia.

O crescimento sob o modelo de gestão independente

O sucesso da Farm Rio não é apenas estético, mas operacional. A marca manteve uma taxa de crescimento anual composta de receita entre 25% e 30% no período de 2023 a 2025, sustentada por uma margem Ebitda estável de 18%. Esse desempenho é atribuído, em grande parte, à autonomia conferida aos seus fundadores, Kátia Barros e Marcello Bastos, que administram o negócio de forma independente dentro da estrutura do grupo.

A estratégia de expansão internacional, que diversificou a receita para além do mercado doméstico, provou ser o principal motor de valorização. Diferente de outras marcas que compõem portfólios de moda, a Farm Rio conseguiu exportar sua proposta de valor sem perder a identidade original. Essa independência operacional, contudo, é agora vista como um ponto de tensão, dado que os fundadores possuem uma participação minoritária na Azzas, estimada entre 3% e 4%.

Mecanismos de valorização e o dilema da governança

A possível monetização da Farm Rio é vista pelos analistas como uma forma de mitigar os riscos de execução que têm pressionado as ações da Azzas. O cálculo de valuation, que utiliza um múltiplo de 8 a 10 vezes o EV/Ebitda, sugere que o mercado pode estar subestimando o potencial de um ativo que cresce em ritmo acelerado fora do Brasil. A arbitragem entre os principais acionistas da holding, focada em estratégias de gestão, surge como o maior risco para a continuidade desse desempenho.

A dinâmica em jogo é clássica em processos de M&A de grandes grupos de moda: a necessidade de capital e escala versus a preservação da alma da marca. Se, por um lado, a venda permitiria um ganho de liquidez imediato para a Azzas, por outro, removeria um dos motores de crescimento mais resilientes do grupo, deixando a holding com um portfólio mais exposto a ciclos de consumo doméstico.

Implicações para o ecossistema de moda

Para o mercado brasileiro, o movimento levanta questões sobre a viabilidade de grandes conglomerados de moda. A concentração de 60% das vendas da Farm Rio no Brasil ainda representa um desafio, pois a marca ainda não enfrentou múltiplos ciclos de retração global. A saída dos fundadores, caso ocorra, poderia desestabilizar a cultura criativa que tornou a marca um sucesso, um ativo intangível difícil de mensurar em planilhas de valuation.

Concorrentes e investidores observam a situação com atenção, pois o desfecho desta avaliação estratégica pode ditar novas rodadas de consolidação ou fragmentação no setor de varejo de moda no Brasil. A habilidade da Azzas em equilibrar a governança corporativa com a manutenção da autonomia das marcas será o fator determinante para o sucesso da transição.

Perspectivas e incertezas

O que permanece incerto é se a Azzas conseguirá resolver seus impasses internos antes que a performance da Farm Rio seja afetada. A dependência de uma gestão centralizada para marcas que exigem agilidade criativa continua sendo um ponto de atenção para o mercado.

Investidores e stakeholders devem monitorar os próximos passos do Morgan Stanley. A decisão final sobre a venda não apenas alterará a estrutura da Azzas, mas também definirá o futuro da marca carioca como um player global independente ou como parte de uma estratégia de portfólio mais ampla.

O mercado aguarda para saber se a marca conseguirá manter sua trajetória ascendente fora da estrutura da holding ou se a governança da Azzas encontrará um caminho de convergência com os fundadores.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times