O Federal Reserve (Fed) enfrenta um dilema complexo em sua política monetária: equilibrar o controle da inflação com a manutenção do pleno emprego. Uma das preocupações centrais é o impacto do aumento das taxas de juros em setores sensíveis, como o imobiliário, cujos efeitos podem retroalimentar a própria inflação. Torsten Slok, economista-chefe da Apollo, gigante global de gestão de ativos, alertou seus clientes sobre um potencial "ciclo vicioso" (doom loop) onde juros mais altos levam a aluguéis mais caros.

"Quando as taxas estão altas, os construtores constroem menos, e quando menos casas e apartamentos são construídos, os aluguéis sobem, o que impulsiona a inflação e mantém as taxas altas", explicou Slok. Essa dinâmica representa um desafio significativo para o Fed, pois o custo da habitação, especialmente o aluguel, tem um peso considerável no Índice de Preços ao Consumidor (CPI). O aluguel equivalente ao do proprietário (owners' equivalent rent), sozinho, responde por cerca de um quarto do cesto do CPI, segundo Slok. Portanto, uma aceleração nos aluguéis coloca uma pressão ascendente sobre a inflação, exatamente o que o Fed tenta combater com a elevação dos juros.

Os dados de construção já mostram sinais de desaceleração. Em agosto, as novas construções de imóveis residenciais nos EUA caíram 2,6% em relação a julho, totalizando 1.275.000 unidades, e 1,2% abaixo do ritmo de agosto de 2025. A conclusão de moradias no mesmo período foi ainda mais acentuada, com 1.128.000 unidades, um recuo de 11,9% em relação a julho e 27,1% inferior ao ano anterior. A escassez de mão de obra qualificada, disputada também por empresas que constroem data centers para IA, agrava o cenário de custos para os construtores.

O consenso do mercado, segundo a Fortune, é que o Fed manterá as taxas de juros inalteradas em sua próxima reunião, em parte devido a um relatório de empregos mais fraco em setembro, que adicionou apenas 29.000 vagas. No entanto, a expectativa geral é de que as taxas de juros continuem a tendência de alta no longo prazo, refletida nos rendimentos elevados dos títulos do Tesouro de longo prazo. Analistas do Bank of America e do UBS, por exemplo, indicam que o Fed pode esperar até dezembro para considerar um novo aumento, citando dados de inflação mais moderados e um crescimento do emprego que não exige aperto monetário imediato. Contudo, a inflação subjacente e o crescimento econômico ainda robusto sugerem que a pressão por juros mais altos pode persistir. A dúvida que fica é se o Fed conseguirá navegar por essa complexa teia de fatores sem agravar ainda mais a crise de acessibilidade habitacional e a inflação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune