A Scholastic Book Fair, um evento que marcou a infância de milhões de estudantes na América do Norte por mais de meio século, está sob escrutínio. O que antes era um catálogo brilhante e uma presença quase circense nas bibliotecas escolares, hoje evoca um debate sobre sua relevância e propósito. A crítica Michelle Cyca, em um artigo para a revista The Walrus, argumentou que as ofertas atuais da feira se tornaram meras "extensões de franquias de brinquedos ou TV", como Lego, Pokémon ou Patrulha Canina. Segundo Cyca, essas novidades parecem se promover "não pelos méritos da narrativa imaginativa, mas por sua proximidade com entretenimentos mais estimulantes". Essa observação levanta questões incômodas: será que a feira que conhecemos e amamos está morta, e isso é mais um sintoma de uma crise de leitura nacional ou apenas o efeito das "lentes cor-de-rosa" da nostalgia?
O Legado e a Evolução da Feira
Para entender o presente, é preciso olhar para o passado. A Scholastic iniciou seus clubes de leitura para adolescentes em 1948, permitindo o acesso a livros a preços acessíveis através de pedidos em sala de aula. As feiras de livros, lançadas em 1982, rapidamente se tornaram um fenômeno, impulsionando séries icônicas como Clifford e, posteriormente, franquias de sucesso no universo jovem adulto (YA), como "Jogos Vorazes" e "Goosebumps". É importante notar que livros derivados de outras mídias e produtos licenciados não são novidade para a feira; ofertas de franquias podem ser rastreadas pelo menos até 2002, quando um guia de Pokémon apareceu na lista de best-sellers. Além de fomentar o amor pela leitura, a feira sempre teve um propósito financeiro, servindo como uma fonte de financiamento suplementar para escolas com poucos recursos. A Scholastic estima que as feiras tenham arrecadado mais de US$ 2 bilhões para escolas americanas na última década. Esse impacto financeiro, especialmente na economia atual, é inegável, mesmo que a qualidade do conteúdo nas prateleiras tenha sido comprometida.
A Crítica da "Enshittification" e a Desigualdade
A crítica central de Cyca e de outros, como Danika Ellis, editora do Book Riot, reside na percepção de que a feira se afastou de sua pureza original. Cyca relembra a emoção de preencher o formulário de pedido, escolhendo entre "Animorphs", romances de Scott O’Dell ou séries de R.L. Stine. No entanto, ao questionar a distinção entre "Animorphs" (que também gerou uma série de TV) e os livros de "Patrulha Canina" ou "Minecraft" em um nível de objeto, a linha entre a imaginação pura e o licenciamento se torna tênue. A feira sempre expôs desigualdades, com alguns alunos ostentando mochilas do Snoopy e outros mal conseguindo comprar um adesivo. Para aqueles cujos pais não compreendiam essa "dança social estranha" ou não tinham dinheiro suficiente, a feira podia ser um rito torturante. A observação de Ellis sobre a disparidade entre alunos que saem com pilhas de livros e brinquedos e aqueles que não conseguem nada é crucial: se o objetivo é celebrar os livros e a leitura, um modelo de feira com fins lucrativos é a melhor abordagem?
Nostalgia vs. Realidade da Experiência
A crítica de Cyca, embora matizada, foca menos nas ofertas modernas da feira e mais em sua "vibe", em como ela se tornou parte de um declínio cultural mais amplo. O termo "enshittification", cunhado por Cory Doctorow, descreve a degradação da experiência do usuário à medida que o valor é extraído. Aplicado ao Vale do Silício, explica como plataformas priorizam corporações em detrimento de indivíduos. No entanto, o conceito se expandiu para explicar por que muitas experiências e produtos, incluindo outros marcos estéticos da Geração Millennial, parecem piores hoje em dia. O historiador cultural Kyle Chayka, em análise para The New Yorker, sugere que, embora "enshittification" seja uma explicação satisfatória, ela não oferece uma solução. Lamentar um objeto do passado pode ser uma distração, um impedimento para agir contra o sistema econômico que leva à existência de produtos como os Squishmallows. O "doomerism", a expectativa de que as coisas só pioram, pode ser um resultado perigoso dessa mentalidade.
Perguntas em Aberto e o Futuro
A feira Scholastic, em sua essência, sempre foi um reflexo do capitalismo e das dinâmicas sociais de seu tempo. A experiência de cobiçar um livro de "Star Wars" ou um pôster das "New Kids on the Block" pode não ter sido intrinsecamente menos pura do que cobiçar um Squishmallow hoje. Para muitos, a feira nunca foi sobre refinar o gosto literário, mas sobre a emoção do desejo e da compra, muitas vezes de algo que os pais não aprovariam. A própria possibilidade de escolher entre "Bud, Not Buddy" e um livro de "Garfield" já indicava uma complexidade que ia além da mera promoção da leitura. Talvez a feira sempre tenha sido essa "frenesi tensa", e o que mudou é a nossa própria maturidade ao observá-la.
Em última análise, a discussão sobre a Scholastic Book Fair nos convida a refletir sobre a natureza da nostalgia, o impacto do capitalismo na cultura infantil e a linha tênue entre o marketing e a inspiração literária. A feira pode ter mudado, mas talvez a experiência de desejo e consumo sempre tenha sido uma parte intrínseca de sua proposta, para o bem e para o mal.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





