A notícia de que a Panini deixará de produzir o icônico álbum de figurinhas da Copa do Mundo a partir de 2031 marca o fim de um capítulo fundamental na cultura esportiva global. A FIFA anunciou que a Fanatics, gigante americana do setor de licenciamento esportivo, assumirá a produção de colecionáveis físicos e digitais do torneio, utilizando sua marca subsidiária Topps. A decisão encerra uma parceria iniciada em 1970, que transformou a troca de figurinhas em um ritual multigeracional em praticamente todos os cantos do planeta.
O impacto dessa transição vai além da simples mudança de fornecedor. Para a Panini, a perda da licença da Copa do Mundo é o desfecho de um processo de erosão de seu portfólio de elite, que já havia sofrido baixas significativas com a saída de ligas como a NBA, a NFL e a Premier League. A editora italiana, que se tornou sinônimo de colecionismo esportivo, enfrenta agora o desafio de se reposicionar em um mercado que está sendo rapidamente reconfigurado por modelos de negócios focados em escala e integração digital.
O peso de seis décadas de tradição
Desde a primeira edição produzida para a Copa de 1970 no México, a Panini elevou o álbum de figurinhas de um simples passatempo infantil para um fenômeno de marketing esportivo. O modelo de negócio, baseado na escassez artificial e na gamificação da troca, provou ser resiliente por mais de meio século, atravessando crises econômicas e revoluções tecnológicas. Para muitos torcedores, o álbum era a porta de entrada para o conhecimento geográfico e cultural sobre as seleções participantes, criando uma conexão emocional que poucos produtos licenciados conseguem replicar.
Contudo, a estrutura de mercado que sustentou a Panini por tanto tempo começou a mostrar sinais de desgaste frente à agressividade da Fanatics. A estratégia da empresa americana, liderada pelo bilionário Michael Rubin, baseia-se na verticalização total: a Fanatics controla desde a fabricação e o e-commerce até a experiência do torcedor no estádio. Em um mundo onde o colecionável precisa competir com a atenção digital e o streaming, a abordagem da Panini, embora nostálgica e eficiente, passou a ser vista por detentores de direitos como limitada frente às possibilidades de monetização oferecidas pela nova economia esportiva.
A estratégia da Fanatics e a nova economia do esporte
O movimento da FIFA não é um evento isolado, mas parte de uma tendência clara de consolidação de ativos esportivos sob grandes guarda-chuvas de entretenimento. A Fanatics não comprou apenas o direito de imprimir figurinhas; ela adquiriu uma plataforma de dados e engajamento. Ao integrar a marca Topps ao seu ecossistema, a empresa promete injetar inovações que incluem a incorporação de emblemas de camisas reais em cartões colecionáveis e uma presença mais robusta no ambiente virtual, algo que a Panini, em sua estrutura editorial tradicional, teve dificuldades em escalar.
Além disso, a promessa da Fanatics de investir mais de US$ 150 milhões em produtos gratuitos ao longo do contrato demonstra um apetite agressivo para capturar a base de fãs desde cedo. A estratégia é clara: transformar o colecionável em um ponto de contato contínuo entre o torcedor e a marca, garantindo que o ciclo de vida do produto não se encerre no final do torneio. Para a FIFA, o acordo representa uma fonte de receita mais previsível e integrada, alinhando-se aos objetivos de maximizar o valor comercial da marca Copa do Mundo em um cenário de custos crescentes de organização.
Tensões no mercado de memorabilia
Para os colecionadores e o mercado de revenda, a mudança traz incertezas sobre o futuro do valor de mercado dos itens produzidos pela Panini. Historicamente, a escassez e a longevidade da marca italiana conferiram aos seus álbuns um status de item de coleção com valor crescente ao longo das décadas. A transição para a Topps sob a égide da Fanatics cria um novo paradigma, onde a produção pode se tornar mais massificada e orientada para o mercado de cartões de alta performance, possivelmente alterando a percepção de valor dos itens futuros.
Os reguladores e concorrentes menores devem observar atentamente como a concentração de licenças nas mãos de um único player afetará a concorrência. Se a Fanatics se tornar o único canal para quase todas as grandes ligas e torneios, a capacidade de inovação e os preços ao consumidor final serão monitorados de perto. No Brasil, onde o álbum da Panini é um pilar cultural, o impacto será sentido tanto no varejo quanto no mercado secundário de trocas, que movimenta milhões a cada ciclo de quatro anos.
O que esperar da era pós-Panini
Restam dúvidas sobre como a transição será gerenciada a partir de 2031 e se a Topps conseguirá replicar o valor sentimental que a Panini construiu. A transição para um modelo mais digital e integrado pode afastar os colecionadores mais tradicionais, que buscam no álbum uma experiência tátil e analógica, ou pode, por outro lado, atrair uma nova geração de investidores de cartões colecionáveis. O sucesso da transição dependerá da capacidade da Fanatics em manter a mística da Copa do Mundo enquanto introduz novas formas de consumo.
O mercado global de memorabilia esportiva, projetado para atingir US$ 40,5 bilhões até 2030, está em plena ebulição. A saída da Panini da Copa do Mundo serve como um lembrete de que, no esporte moderno, a lealdade à marca é frequentemente superada pela eficiência operacional e pela capacidade de integração tecnológica. O torcedor, por sua vez, aguarda para ver se a nova era trará colecionáveis que possuam a mesma alma que os álbuns que definiram o futebol por gerações.
A transição ainda levará anos, e a Panini continuará presente nas próximas edições antes de passar o bastão em 2031. O mercado de colecionáveis, contudo, já iniciou sua própria contagem regressiva para um modelo que privilegia a velocidade, a tecnologia e a escala global sobre a tradição editorial que, por décadas, foi a regra.
Com reportagem de Bloomberg Línea
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