A poucas semanas do apito inicial do Mundial de 2026, a FIFA vive um impasse incomum para a maior competição de futebol do planeta. Segundo o Xataka, embora já tenha fechado contratos de transmissão em mais de 175 países, a entidade ainda não garantiu acordos com a China e a Índia — os dois mercados mais populosos do mundo. O nó reflete o atrito entre a estratégia de maximização de receitas da FIFA e as particularidades econômicas e geográficas dos principais mercados asiáticos, em um torneio que terá jogos disputados nos Estados Unidos, Canadá e México.

Fuso horário pesa na conta de publicidade

Com partidas sediadas na América do Norte, muitos jogos de maior apelo ocorrerão de madrugada na Ásia. Isso reduz o potencial de audiência em horário nobre e, por consequência, o apetite de anunciantes locais — uma variável central para que emissoras e plataformas justifiquem os valores pedidos pela FIFA. A entidade, por sua vez, tenta preservar uma precificação que reflita o prestígio global do evento, apostando que a demanda acabará por sustentar os preços. O descompasso cria um vácuo de incerteza perigoso tão perto do início do torneio.

O papel da Ásia no alcance digital

A China tem exercido papel desproporcional no consumo digital de Copas recentes. Relatórios públicos da própria FIFA após 2022 destacaram a relevância do público chinês para as métricas de horas assistidas em plataformas digitais. Sem um acordo com os detentores tradicionais de direitos no país — combinando TV e sublicenças digitais —, a visibilidade do torneio pode sofrer um baque relevante.

Na Índia, um mercado em rápida expansão para consumo esportivo online, o interesse cresce, mas a disposição de pagamento das plataformas e emissoras ainda precisa fechar a conta com os preços pretendidos pela FIFA. Em um ambiente de margens apertadas, a incerteza sobre audiência em horários menos favoráveis limita a capacidade de monetização via publicidade e assinaturas.

Negociação sob relógio

O jogo de forças segue a lógica da economia da atenção: sem janela adequada para ativação de campanhas e venda de cotas regionais, cada semana sem acordo corrói o potencial de retorno. Do lado das empresas asiáticas, a resistência se ancora em viabilidade comercial; do lado da FIFA, a tese é a de que a Copa é um produto essencial, cuja ausência de um território representaria perda de relevância para os próprios players locais.

O que está em jogo para os direitos esportivos

O impasse expõe os limites de uma estratégia de precificação global padronizada diante de mercados com dinâmicas de consumo distintas. Se persistir, pode acelerar a busca por alternativas de distribuição — incluindo formatos de streaming direto ao consumidor — e reabrir o debate sobre centralização versus flexibilidade regional na venda de direitos.

Para o ecossistema brasileiro e latino-americano, fica o alerta: a fragmentação da audiência e a sensibilidade a fuso/horário sugerem que modelos de receita excessivamente dependentes de TV aberta ou pacotes lineares podem exigir redesenho, com maior ênfase em pacotes híbridos, ativações regionais e janelas sob medida.

Próximos passos

Resta saber até onde a FIFA está disposta a ajustar suas exigências para assegurar presença plena na Ásia. A proximidade do torneio aumenta a pressão por uma solução que preserve tanto a receita quanto o alcance global — variáveis que, no limite, definem não apenas o desempenho financeiro de 2026, mas também a referência de preço e a estratégia de negociação para as próximas edições.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka