Scott Samuelson, em seu livro "To Taste: On Cooking and the Good Life", propõe uma tese audaciosa: cozinhar e compartilhar uma refeição é "o" paradigma para o cuidado da alma. Essa afirmação, que foge radicalmente da tradição filosófica ocidental, onde figuras como Sócrates viam a culinária como mera distração e o ato de comer como fonte de excessos, encontra eco em uma nova onda de pensadores que reconhecem o valor intrínseco da comida e de sua preparação.

A Culinária como Espelho da Existência

A obra de Samuelson, ex-chef de cozinha e agora filósofo, distingue-se pela intimidade e pela profundidade com que extrai lições existenciais de anedotas pessoais e da prática culinária. Ele desafia a visão platônica de que a busca pela sabedoria e virtude se dá pela disputa intelectual, argumentando que a vida boa é, em grande parte, construída e nutrida pelas relações humanas, muitas das quais têm a comida como elemento central e não meramente acessório. A experiência pessoal com a luta de sua filha contra a bulimia, por exemplo, confere uma dimensão trágica e genuinamente comovente à narrativa, ilustrando a complexidade das relações moldadas pelo ato de comer.

O Sabor como Ferramenta de Julgamento e Relação

Um dos pilares do argumento de Samuelson reside na analogia entre os julgamentos feitos na cozinha e o bom julgamento em geral. A instrução de "temperar a gosto" em uma receita, segundo ele, encapsula o mistério de ser humano. O livro explora a ideia de Marcella Hazan sobre a atenção aos sabores, que começa com o prazer pessoal, expande-se para a compreensão de tradições e culmina na criação de um estilo próprio. Para Samuelson, o sabor e o prazer que dele derivamos não são superficiais, mas essenciais para o julgamento, tanto na culinária quanto em outras esferas da vida. Coaxar o sabor, argumenta, é análogo a fomentar a cooperação e alinhar incentivos: requer conhecimento dos elementos, paciência, empatia e a capacidade de discernir a direção correta, seja ao cozinhar um ensopado ou negociar com uma criança.

Hospitalidade e o Cuidado com o Próximo

Outro fio condutor da obra é a ética como uma extensão da hospitalidade, que floresce à mesa. Samuelson sugere que nossas necessidades mais profundas – por lar, amor, transcendência – são reveladas pela fome. O trabalho ético fundamental seria, portanto, "preparar a mesa", garantindo que todos tenham o suficiente para florescer. Essa perspectiva, embora poderosa, levanta questões sobre a aplicação a uma sociedade mais ampla, para além dos convidados em nossa casa. A resenha aponta que a confiança é um elemento crucial tanto na hospitalidade quanto nas relações éticas em geral, e que a escassez de confiança em sociedades contemporâneas desafia a prática genuína da hospitalidade como modelo.

A Celebração do Excesso e a Afirmação da Vida

Finalmente, o livro aborda a importância da comida em celebrações, onde o excesso se torna a norma. "Festividade", para Samuelson, não é apenas ter um bom momento, mas dar forma à energia e ao significado que transbordam de nossas vidas. Ele argumenta que a comida e o sexo são iterações do mesmo anseio instintivo, transcendendo o propósito biológico para explorar a vastidão de nossos desejos. Cuidar da alma, nesse contexto, não é reprimir desejos, mas afirmar a vida em sua exuberância, através da intimidade, do cuidado e, crucialmente, do sabor. O sabor, que vai além do necessário, torna perceptível o excesso que nos permite florescer. A obra conclui que cozinhar e compartilhar comida é um paradigma da boa vida, pois a vida é, em sua essência, exorbitante e além da mera função ou produtividade. O trabalho do cuidado e da hospitalidade é dar forma a esse excedente para que ele possa prosperar.

Com reportagem de Brazil Valley

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