O silêncio que emana das vitrines de um museu de história natural é, muitas vezes, o silêncio de uma ausência definitiva. Para a artista neozelandesa Fiona Pardington, esse vazio não é estático; ele abriga camadas de histórias coloniais, perdas ecológicas e uma dimensão espiritual que a ciência ocidental frequentemente ignora. Em 'Taharaki Skyside', projeto que ocupa o pavilhão da Aotearoa Nova Zelândia na 61ª Bienal de Veneza, Pardington não se limita a documentar espécimes preservados. Ela os convoca como testemunhas de um tempo que se esvai, transformando taxidermias em retratos íntimos que exigem do espectador um olhar mais atento à fragilidade do mundo natural.
A estética do luto e a lente da memória
Ao isolar aves como o huia ou o moho contra fundos escuros, Pardington retira esses seres do contexto frio de inventários museológicos. A iluminação suave e o enquadramento fechado revelam texturas — a plumagem sutil, a curvatura de um bico, o olhar vítreo — que conferem aos espécimes uma dignidade quase humana. Não há o distanciamento típico dos registros científicos. Em vez disso, a artista enfatiza as marcas do tempo, como pontos de costura e superfícies desgastadas, reconhecendo que a preservação é, em si, um ato humano de tentativa de cura diante de uma destruição irreversível.
Entre o sagrado Māori e a ciência
O trabalho de Pardington é profundamente enraizado na cosmologia Māori, onde os pássaros, ou manu, funcionam como mensageiros entre o mundo dos vivos e o divino. A prática da artista desafia a forma como as instituições ocidentais classificaram corpos e culturas por séculos. Ela não vê apenas um objeto histórico, mas um ancestral e um portador de genealogia. Ao trazer essa perspectiva para Veneza, o pavilhão propõe um diálogo entre a técnica fotográfica contemporânea e saberes ancestrais que entendem a natureza não como um recurso, mas como uma rede de relações espirituais contínuas.
Conexões atmosféricas entre Veneza e o Pacífico
Curiosamente, a instalação estabelece uma ponte geográfica inesperada. Durante uma visita à Itália, Pardington notou uma semelhança entre a luz sobre a lagoa veneziana e a atmosfera das colinas de Hunter Hills, em sua terra natal. Essa observação traduziu-se em quadros iluminados que emolduram as fotografias, criando um horizonte compartilhado entre hemisférios. É uma escolha que sublinha a universalidade da crise ecológica, sugerindo que a perda de uma espécie em Aotearoa é uma ferida sentida em todo o globo, ecoando as visões de purgatório e transcendência que permeiam a história da arte europeia.
O futuro da ausência
O que resta quando a última criatura de uma espécie desaparece? 'Taharaki Skyside' não oferece respostas reconfortantes, mas convida à reflexão sobre o nosso papel na aceleração dessas perdas. Ao confrontar o espectador com a presença física do que já não existe, Pardington situa a fotografia como um instrumento de reparação, ainda que simbólico. O projeto permanece, portanto, como um lembrete da responsabilidade ética de olhar para o que decidimos, ou falhamos, em proteger.
Talvez a força do trabalho de Pardington resida exatamente nessa resistência em deixar que os pássaros se tornem apenas sombras no arquivo. Enquanto caminhamos pelas salas da Bienal, somos forçados a perguntar: quanto da nossa própria herança natural estamos dispostos a transformar em memória, em vez de garantir sua existência no céu aberto? O olhar dessas aves, congelado no tempo, parece observar o nosso próprio futuro, ainda incerto e cada vez mais silencioso.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





