Cinco anos após o lançamento de "F9", a sequência em que a equipe de Velozes e Furiosos lança um Pontiac Fiero ao espaço permanece como um marco de audácia cinematográfica. A cena, que coloca os personagens Tej Parker e Roman Pearce em órbita para destruir um satélite, é frequentemente citada como o ápice do desapego da franquia pela realidade. No entanto, uma análise técnica realizada por especialistas em aeronáutica e física sugere que, embora o entretenimento prevaleça sobre a precisão, os cineastas incorporaram elementos de lógica real em meio ao espetáculo.
Segundo reportagem do Space.com, a construção do cenário envolveu mais do que apenas efeitos especiais desenfreados. Ao consultar especialistas como David Cohen, reitor de aeronáutica na Lynn University, e Bryan Schmidt, professor de engenharia aeroespacial na Case Western Reserve University, percebe-se que a produção buscou inspiração em sistemas de lançamento aéreo existentes, ainda que tenha falhado em aspectos fundamentais de engenharia e segurança.
O desafio da logística aérea
A representação da aeronave que transporta o carro apresenta inconsistências técnicas notáveis. David Cohen aponta que o cockpit exibido é uma fusão de modelos Boeing 767 e 777, enquanto a visão externa remete a um C-17 militar, porém com quatro motores. Para além do design, a logística de liberação do veículo é tratada com excessiva simplicidade. Na realidade, o lançamento de qualquer carga de uma aeronave exige protocolos rigorosos de testes e posicionamento, algo que o filme ignora ao colocar o carro perigosamente próximo à cauda do avião.
Por outro lado, a influência do sistema de lançamento aéreo da Virgin Galactic, o SpaceShipTwo, é evidente. A estratégia de levar o veículo a uma altitude elevada antes da ignição dos foguetes é uma prática real, usada para reduzir o esforço necessário para atingir o espaço. A escolha do combustível, utilizando óxido nitroso — presente no tanque do Fiero no filme e também como oxidante em sistemas reais —, sugere que a equipe de produção buscou um verniz de credibilidade técnica para sustentar a fantasia.
Limitações da física orbital
Mesmo com a inspiração em sistemas reais, a física de "F9" colapsa ao tentar sustentar a órbita do veículo. O físico Ashmeet Singh explica que, para permanecer em órbita, o objeto precisaria atingir velocidades de aproximadamente 7,8 quilômetros por segundo. "Um par de propulsores parafusados a um carro não consegue carregar nada perto disso", afirma Singh. Além da velocidade, a integridade estrutural do Fiero seria comprometida pela resistência do ar e pelo calor extremo, que ultrapassaria 1.000°C na subida, algo que uma carroceria de fibra de vidro não suportaria.
A cena do volante é, talvez, o ponto mais criticado pelos especialistas. Em um ambiente de vácuo, manobrar o carro através da direção é inútil, pois não há ar ou superfície para oferecer resistência. Veículos espaciais reais utilizam propulsores laterais para pivô, tornando a atuação de Roman Pearce puramente teatral. A ausência de consideração sobre os efeitos da força G nos personagens completa o quadro de liberdades criativas tomadas pelo roteiro para manter o ritmo da narrativa.
O fator humano e a imersão
Curiosamente, os especialistas validam alguns elementos humanos da cena. O uso de trajes pressurizados, inspirados nos pioneiros da aviação como Wiley Post, reflete uma lógica histórica correta para a sobrevivência em grandes altitudes. Da mesma forma, a reação de deslumbramento dos personagens ao observar a Terra a partir do espaço é considerada um acerto emocional. Astronautas reais, como Chris Hadfield, já descreveram a mesma sensação de reverência, validando o impacto psicológico que o filme buscou transmitir.
Perspectivas e o futuro da franquia
O que permanece incerto é o limite da suspensão de descrença do público. "F9" consolidou a franquia como um universo onde a física é opcional, mas a pergunta que fica é se esse nível de espetáculo ainda sustenta o interesse dos fãs ou se a escalada do absurdo atingiu um teto. Observar como a série evoluirá em futuras produções dirá se o público continuará aceitando essas incursões pelo espaço ou se exigirá um retorno a terrenos mais sólidos.
A busca por um equilíbrio entre a grandiosidade de Hollywood e a ciência real continuará sendo um exercício fascinante para os espectadores. Enquanto o cinema prioriza a emoção, o diálogo com especialistas revela as costuras de uma produção que, apesar de cientificamente impossível, permanece fiel à sua proposta de entretenimento extremo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Space.com





