A conversa com Sylvie Fleury e Esben Weile Kjær começa em um quarto de hotel em Paris, que Fleury compara a uma loja da Prada. É um cenário propício para um diálogo entre dois artistas cujas obras compartilham um profundo interesse pela moda e pelo desejo. Fleury, desde os anos 1990, é conhecida por incorporar objetos de luxo e símbolos associados ao universo feminino em suas criações. Kjær, um nome proeminente na cena artística dinamarquesa, constrói suas esculturas, instalações e performances a partir de elementos da cultura de massa.

O encontro entre os dois artistas, em 2022, durante uma exposição coletiva, marcou o início de uma amizade que floresceu em um diálogo artístico contínuo, descrito por eles como operando por meio de uma espécie de "telepatia". A afinidade é notável: ambos compartilham um estilo cool, cabelos longos e um humor perspicaz que transcende a tela. Sua mais recente colaboração, "Ultimate Charge", apresentada na Andersen Contemporary em Copenhague, materializa esse diálogo. Doze esculturas em bronze, pintadas à mão, transformam as formas gráficas de fontes de fogos de artifício em objetos permanentes, envoltos em cores vibrantes como rosa choque e prata. Embora suas obras frequentemente lidem com o espetáculo, a colaboração em si parece ter sido alimentada por elementos mais simples: amizade, coquetéis e um apetite compartilhado por imagens.

A Génese da Colaboração: Moda, Imagens e Amizade

A faísca para "Ultimate Charge" surgiu, segundo os artistas, de uma imersão em revistas de moda. Kjær relata uma visita a Fleury em Paris, onde juntos percorreram a cidade comprando o máximo de publicações de moda que conseguiam carregar. De volta ao hotel, passaram horas folheando as revistas, bebendo Bloody Marys, analisando a repetição de imagens e os ecos visuais que atravessavam diferentes publicações. Essa experiência não apenas reforçou o interesse mútuo em moda e publicidade, mas também em padrões e repetições. A seleção abrangeu desde revistas de arte e design até publicações de moda masculinas e a renomada i-D, indicando uma busca abrangente por referências visuais.

Essa imersão em imagens e a afinidade estética são, sem dúvida, pilares da colaboração. No entanto, Kjær aponta a amizade como o motor principal. Fleury concorda, mas ressalta que a amizade, por si só, não garante uma colaboração bem-sucedida. Ela menciona uma "mente aberta" como um fator crucial, algo que a obra de Kjær desperta nela. A capacidade de encontrar trabalhos que ressoam positivamente, que "fazem sentir bem", é rara e valiosa no mundo da arte. A admiração mútua é palpável; Kjær expressa um "FOMO" (Fear Of Missing Out) intenso por não ter presenciado a performance "Instructions for Twilight" de Fleury em Nova York, demonstrando uma urgência em vivenciar as obras da colega. Fleury, por sua vez, sugere que, no final das contas, o que realmente importa é o "espírito" por trás da obra, mais do que a obra em si.

Transformando o Efêmero em Permanente: Fogos de Artifício e Ready-mades

A ideia de "Ultimate Charge" emergiu diretamente daquela montanha de revistas e do interesse compartilhado em fogos de artifício e no espetáculo. Os artistas focaram nas representações gráficas de fogos de artifício produzidos em massa, insistindo na superfície e no design desses pacotes. Fleury vê os fogos de artifício como um material artístico quase perfeito: algo pequeno e contido que, ao ser aceso, revela uma imagem completamente diferente, desvinculada de sua forma original. A beleza das embalagens e gráficos desses artefatos efêmeros foi um ponto de partida. A afinidade com o conceito de "ready-made" também foi fundamental, levando-os a transformar essas "esculturas em miniatura" prontas em peças ampliadas e permanentes. O processo de dar nova vida e solidez a esses elementos efêmeros foi descrito como particularmente excitante.

A questão das perucas, que remetem à semelhança física entre os artistas, surgiu de forma orgânica. Fleury observa que essa semelhança física se alinha com a forma como eles abordam a identidade na arte. Colaborar, para artistas que dedicam suas carreiras a forjar uma linguagem única, pode ser um desafio. No entanto, Fleury expressa satisfação com o resultado, lembrando com carinho os momentos de convívio em Paris, incluindo idas a lojas como a Gucci, onde ambos acabaram comprando a mesma bolsa, em tamanhos diferentes. Essa experiência conjunta, marcada por coquetéis e compras, parece ter sido tão importante quanto o processo criativo em si, reforçando a ideia de que a colaboração é também um ato social e de partilha.

O Subversivo no Pop e a Questão Geracional

A abordagem da cultura pop sem cair na superficialidade é uma questão central, especialmente para Kjær, que tem um histórico como DJ. Ele vê na música pop um potencial subversivo, especialmente vindo de um ambiente punk. A capacidade do pop de criar imagens e narrativas coletivas, e de mediar em massa, o fascina. Ao misturar faixas de diferentes épocas em suas mixagens, ele explorava o potencial subversivo da cultura de massa. Fleury, por sua vez, tem uma longa trajetória explorando temas como a superficialidade, o interior e o exterior, e o desejo de posse, como exemplificado por suas icônicas "shopping bag works". Ela não vê necessariamente essas obras como pop art, mas como explorações conceituais do desejo de consumo.

A diferença geracional entre Fleury e Kjær, embora sutil, é reconhecida. Kjær admira o legado e a vasta experiência de Fleury, enquanto Fleury sente uma afinidade etária com Kjær, recusando-se a sentir-se "velha". Essa ausência de rigidez geracional permite que ambos mantenham uma curiosidade constante sobre a vida, uma qualidade que Fleury atribui à essência de ser artista. Ela até considera citar sua mãe de 98 anos, que afirma sentir-se sempre com 18, sugerindo que essa vitalidade e juventude de espírito podem ser inatas. A colaboração "Ultimate Charge" é, portanto, menos sobre a distância entre gerações e mais sobre a sintonia entre duas almas artísticas que encontram no espetáculo, na moda e na amizade um terreno fértil para a criação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · i-D