A inteligência artificial (IA) desponta como uma força transformadora com potencial para impulsionar o crescimento econômico mundial, mas seu avanço acelerado carrega consigo riscos significativos que não podem ser ignorados. Kristalina Georgieva, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), destacou em um evento recente em Singapura que, embora a IA possa adicionar até 0,5 ponto percentual ao crescimento anual do PIB global, sua implementação e disseminação podem também alimentar pressões inflacionárias e ampliar a já crescente desigualdade entre os países.

O FMI estima que os investimentos globais em IA, quando comparados ao tamanho das economias, podem atingir e até superar os níveis históricos de grandes projetos de infraestrutura, como ferrovias, redes elétricas e sistemas de telecomunicações. Esse volume de investimento sugere um impacto econômico comparável ao de revoluções tecnológicas passadas. Contudo, Georgieva ressalta que o cenário atual é complexo, com governos já lidando com o aumento dos custos de energia, dívidas públicas elevadas e tarifas comerciais. Essa conjuntura restringe o espaço fiscal para lidar com novos desafios, tornando a gestão dos efeitos da IA ainda mais crítica.

O Boom da IA e Seus Efeitos Colaterais

A expansão da IA não se restringe ao desenvolvimento de algoritmos e softwares; ela já representa uma parcela considerável do comércio mundial. Produtos de hardware e tecnologia diretamente ligados à IA já compõem mais de 10% do comércio global de bens. O potencial de crescimento econômico é substancial: o FMI projeta que a tecnologia pode adicionar até 0,5 ponto percentual ao crescimento anual do PIB mundial. No entanto, essa expansão tende a ser desigualmente distribuída. Países que não estão na vanguarda da produção e do fornecimento de tecnologia para IA correm o risco de se beneficiar menos dessa onda de inovação, o que pode aprofundar a disparidade econômica entre nações. Além disso, a construção da infraestrutura necessária para a IA demanda um aumento na demanda por energia e outros recursos, adicionando mais uma camada de pressão sobre os preços em um contexto já inflacionário.

Desigualdade e Dívida Pública: Um Cenário Delicado

O avanço da IA ocorre em um momento particularmente sensível para as finanças públicas globais. A dívida pública mundial aproxima-se de níveis recordes, superando 100% do PIB em muitos países, um patamar não visto desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Esse endividamento elevado limita a capacidade dos governos de realizar novos investimentos e de responder a choques econômicos. Georgieva aponta que, após um longo período de juros baixos, o atual ambiente de taxas de juros mais altas torna a gestão das dívidas um desafio ainda maior. Para que os países possam capitalizar os benefícios do crescimento impulsionado pela IA e manter margens para enfrentar novas crises, é imperativo que reorganizem suas contas públicas e recuperem espaço orçamentário, evitando um endividamento ainda maior.

A Lei de Amara e a Instabilidade no Horizonte

O impacto da IA nos mercados financeiros também é uma fonte de preocupação. Os preços das ações de grandes empresas de tecnologia estão intrinsecamente ligados às expectativas de lucros futuros. Se esses resultados não se materializarem conforme o esperado, a volatilidade pode se espalhar rapidamente por todo o mercado financeiro. Georgieva invoca a Lei de Amara, que sugere que novas tecnologias tendem a ser superestimadas no curto prazo e subestimadas no longo prazo. O período entre o atual pico de investimentos em IA e a plena realização de seus benefícios econômicos pode ser uma fase de maior instabilidade. Nesse contexto, o FMI defende a necessidade de fiscalização e de regras claras para guiar essa transformação, buscando maximizar o potencial da IA sem agravar as pressões sobre preços, contas públicas e mercados.

O desafio reside em navegar a revolução da IA de forma a colher seus frutos de produtividade e crescimento, ao mesmo tempo em que se mitigam os riscos de inflação, desigualdade e instabilidade financeira. A cooperação internacional e a adoção de políticas fiscais e monetárias prudentes serão essenciais para garantir que a IA se torne uma força para o progresso econômico sustentável e inclusivo, e não um catalisador de crises futuras.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital