A inteligência artificial (IA) emerge como uma força motriz ambivalente no cenário econômico mundial, apresentando tanto oportunidades exponenciais quanto riscos significativos. Kristalina Georgieva, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), destacou que o avanço da IA é uma das duas grandes forças que moldam o panorama atual. Contudo, ela alertou que, sem mecanismos de controle adequados, os perigos inerentes a essa tecnologia podem eclipsar seus benefícios, afetando a estabilidade financeira, a dívida e, de forma proeminente, os mercados de trabalho.

Em um debate durante a Conferencia Internacional de Banca 2026, organizada pelo Banco Santander, Georgieva sublinhou que a IA tem o potencial de ser uma ferramenta democrática e acessível. O entusiasmo gerado pela tecnologia, os vultosos investimentos em seu desenvolvimento e a consequente valorização de empresas associadas são apontados como motores do crescimento global. No entanto, a economista búlgara observou que os lucros desse processo tendem a se concentrar em um número restrito de países produtores integrados à cadeia de valor da IA, como Estados Unidos e China, deixando a Europa, com exceção dos Países Baixos, em uma posição de menor protagonismo.

Riscos e Oportunidades da IA

Georgieva delineou três riscos principais associados a esse cenário. O primeiro reside na ameaça à estabilidade financeira. O fervor em torno da IA pode inflar expectativas, e qualquer instabilidade nesse novo pilar econômico poderia gerar "graves problemas". A história demonstra que novas tecnologias frequentemente são superestimadas em seu impacto de curto prazo e subestimadas em seu potencial de longo prazo, o que pode levar a retiradas massivas de investimento caso o entusiasmo inicial se dissipe. O segundo risco aborda o financiamento de investimentos em IA, cada vez mais dependente de dívidas, muitas vezes de longo prazo e com um caráter circular de "eu invisto em você, você investe em mim". Essa interdependência pode se tornar um grande problema se algo sair errado.

O Impacto no Mercado de Trabalho

O terceiro e talvez mais discutido risco é o impacto da IA nos mercados de trabalho. Georgieva comparou esse fenômeno a um "tsunami lento, mas um tsunami ao fim e ao cabo". O FMI projeta que cerca de 40% dos empregos globalmente serão afetados pela IA em um futuro próximo. Em economias avançadas, essa projeção se eleva para 60% dos postos de trabalho em um horizonte de três a cinco anos. Embora alguns empregos possam ser aprimorados e remunerados de forma mais elevada, outros tendem a desaparecer e muitos serão redefinidos. Nos Estados Unidos, já se observa uma diminuição em empregos rotineiros, frequentemente ocupados por jovens em início de carreira, enquanto a demanda por empregos de serviços de baixa qualificação aumenta. O impacto líquido no emprego, até o momento, tem sido ligeiramente positivo, mas a estrutura do emprego está passando por uma transformação profunda.

A Visão do Setor Financeiro e a Necessidade de Regulação

Ana Botín, presidente executiva do Santander, ecoou o otimismo sobre o potencial transformador da IA, descrevendo-a como um "acontecimento único na história da humanidade" que oferece a entidades como o banco a chance de superar concorrentes. No entanto, ela ressaltou que a adoção da IA pelas empresas não se traduz automaticamente em implementação efetiva, que ainda está distante de ser alcançada em larga escala. Para isso, são necessárias plataformas globais comuns e uma escala de atuação global, algo que, segundo Botín, a Europa ainda precisa desenvolver em seus bancos e empresas. A executiva também enfatizou a importância das habilidades gerenciais e da motivação para integrar e utilizar a IA, além de defender o princípio de "mesmo risco, mesmas regras" para a regulação, questionando as implicações para liquidez e privacidade quando agentes acessam contas bancárias.

Desafios de Capacitação e Futuro do Trabalho

A irrupção da IA exige novas habilidades e a requalificação de grande parte da força de trabalho, um processo que demandará tempo e investimento considerável. A divergência entre os países na corrida pela IA e a concentração de benefícios em poucas nações levanta questões sobre a equidade e a necessidade de políticas que promovam uma distribuição mais ampla das vantagens tecnológicas. A forma como as economias avançadas e os países em desenvolvimento lidarão com essa transição definirá o futuro do trabalho e a estabilidade econômica global.

O cenário delineado pelo FMI e pelas lideranças do setor financeiro aponta para uma revolução em curso, impulsionada pela IA. A questão central reside em como a sociedade global conseguirá navegar entre as promessas de prosperidade e os riscos de desestabilização, garantindo que os benefícios da tecnologia sejam amplamente compartilhados e que os desafios, especialmente no mercado de trabalho, sejam mitigados de forma eficaz.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España