A Ford atingiu um marco relevante ao conquistar o topo do ranking de qualidade da JD Power, superando marcas historicamente fortes como a Lexus. A conquista, celebrada pela montadora nesta semana, marca uma virada estratégica após anos de dificuldades operacionais e um volume recorde de recalls. Segundo executivos da companhia, o resultado não é fruto exclusivo de inovações tecnológicas, mas de uma mudança na gestão do conhecimento técnico interno.

A montadora revelou que, desde 2023, promoveu a contratação ou o retorno de cerca de 350 especialistas técnicos experientes. A decisão corrige um erro de percurso no qual a empresa, ao tentar otimizar processos via automação, acabou perdendo o capital intelectual de engenheiros veteranos que possuíam o conhecimento tácito necessário para evitar falhas complexas em design e manufatura.

O limite da automação no chão de fábrica

A tese central da Ford é que a inteligência artificial, embora poderosa, não substitui a curadoria humana. Charles Poon, vice-presidente de engenharia de hardware, afirmou que a empresa cometeu o erro de acreditar que bastaria alimentar sistemas de IA com requisitos de design para obter um produto de alta qualidade. A realidade, contudo, mostrou que a eficácia da IA é limitada pela qualidade dos dados e pela capacidade humana de interpretar os cenários de falha.

O problema, segundo a liderança da Ford, residia nas fronteiras entre as equipes de design, software e hardware. Sem a supervisão de engenheiros veteranos para mentorar os mais jovens e realizar revisões críticas de projeto, a empresa falhou em prever problemas que só apareciam após o início da produção. A IA, nesse contexto, serviu apenas como uma ferramenta de suporte, e não como a solução definitiva para a complexidade da engenharia automotiva.

Mudança nos mecanismos de controle

A transição operacional da Ford envolveu o abandono do modelo de "encontrar e consertar" — baseado na detecção de falhas tardias — para uma abordagem preventiva. Sob a gestão do COO Kumar Galhotra, a empresa dobrou sua população de especialistas técnicos. Esses profissionais agora lideram revisões obrigatórias de design, buscando pontos de falha antes que qualquer peça chegue à linha de montagem, integrando os silos de manufatura e cadeia de suprimentos.

Ferramentas como o AiTriz e o MAIVs, sistemas de escaneamento baseados em IA lançados em 2024, continuam sendo pilares da estratégia. No entanto, a Ford enfatiza que essas tecnologias agora operam sob a supervisão direta de especialistas que validam os processos. O objetivo é garantir que a tecnologia seja treinada com dados precisos, evitando que a automação perpetue erros de design que, no passado, resultaram em recalls massivos.

Implicações para o setor automotivo

O caso da Ford serve como um alerta para outras montadoras que buscam acelerar a digitalização de suas fábricas. A dependência excessiva de algoritmos sem a devida contrapartida de experiência humana pode gerar uma falsa sensação de segurança. Para o mercado, o fato de a Ford ter emitido 152 recalls em 2025 ressalta que o impacto das decisões de engenharia é de longo prazo, funcionando como um indicador defasado.

Para investidores e consumidores, a vitória na JD Power é um sinal positivo, mas a durabilidade a longo prazo dos veículos de nova geração ainda precisa ser testada. A montadora sustenta que os dados internos já mostram melhorias claras, mas a indústria observa com cautela se essa nova estrutura de gestão será capaz de sustentar a qualidade conforme a complexidade dos veículos conectados e elétricos continua a crescer.

O desafio da sustentabilidade operacional

Embora o reconhecimento da JD Power traga um fôlego necessário, a Ford ainda enfrenta o peso de recalls em plataformas projetadas entre 2013 e 2020. A empresa admite que esses eventos são reflexos de decisões tomadas no passado, o que levanta a questão sobre quanto tempo será necessário para que a nova cultura de engenharia se reflita integralmente na frota circulante.

A grande interrogação para o mercado é se a combinação de IA e especialistas veteranos é escalável o suficiente para suportar o ritmo de inovação exigido pela eletrificação. A Ford demonstrou que reconhecer a falha técnica é o primeiro passo, mas a manutenção dessa disciplina operacional será o verdadeiro teste de sua liderança no setor.

O cenário atual sugere que a tecnologia automotiva atingiu um nível de complexidade onde a automação pura não é mais o diferencial competitivo, mas sim a capacidade de gerir o conhecimento humano em meio à transição digital. A Ford aposta que o equilíbrio entre a precisão da máquina e a intuição do engenheiro veterano será o padrão para a próxima década.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider