O III Foro Iberoamericano de Turismo, encerrado recentemente em San Pedro Sula, Honduras, marcou uma mudança de tom na agenda regional do setor. O encontro, que integra as discussões empresariais das Cúpulas Iberoamericanas, buscou transitar de um diagnóstico de problemas estruturais para a implementação de mecanismos concretos de transformação. Segundo o documento final, o objetivo central é converter o diálogo entre atores diversos em capacidade de ação sistêmica.

A iniciativa reflete uma tentativa de superar a fragmentação institucional e a falta de continuidade nas políticas públicas que historicamente limitam o potencial turístico da região. O compromisso firmado no evento estabelece seis eixos prioritários, que vão desde a governança compartilhada até a adaptação tecnológica, visando garantir que o desenvolvimento do setor resulte em prosperidade real para as comunidades locais.

O desafio da governança e coordenação regional

A história recente do turismo na Iberoamérica tem sido marcada por uma desconexão entre o crescimento econômico e a solidez das estruturas institucionais. Historicamente, a fragmentação entre ministérios, governos locais e o setor privado impediu a criação de políticas de longo prazo, resultando em destinos vulneráveis a crises e com dificuldades para traduzir a sustentabilidade em competitividade real.

A leitura aqui é que a maturidade do setor depende menos do volume de visitantes e mais da capacidade de coordenar atores distintos em torno de objetivos comuns. O foro tenta institucionalizar essa colaboração, tratando a governança não apenas como um conceito administrativo, mas como um pré-requisito para qualquer avanço em infraestrutura ou promoção de destinos.

Tecnologia como alavanca e não como fim

O debate sobre a digitalização no turismo iberoamericano enfrenta um dilema central: a adoção de IA, análise de dados e sistemas preditivos sem uma base institucional robusta corre o risco de aprofundar desigualdades. A transformação tecnológica, embora acelerada, não resolve por si só a falta de resiliência territorial ou a precariedade do trabalho no setor.

O mecanismo proposto pelo foro foca em integrar a tecnologia à gestão pública, criando observatórios de dados que permitam antecipar tendências e riscos. O movimento sugere que a competitividade das empresas, especialmente as micro e pequenas, dependerá da capacidade de acessar essas ferramentas de inteligência turística, evitando que o hiato tecnológico exclua trabalhadores e comunidades locais do processo de modernização.

Impacto e stakeholders em foco

As implicações para os stakeholders são amplas, envolvendo desde organismos multilaterais como o BID e a CAF até pequenas empresas regionais. A ênfase na formação de capital humano e na atualização de competências indica uma preocupação com a empregabilidade em uma nova economia turística que exige habilidades digitais e uma gestão mais equilibrada de recursos naturais.

Para o ecossistema brasileiro, esse movimento reforça a necessidade de alinhar estratégias regionais de promoção turística com os padrões de sustentabilidade e resiliência exigidos globalmente. A cooperação regional, defendida pelo acordo de San Pedro Sula, pode servir como um modelo para que destinos nacionais integrem suas cadeias de valor, garantindo que o turismo atue como um vetor de coesão social e não apenas como uma métrica de receita.

O horizonte de 2027

O sucesso dessa agenda depende da capacidade dos signatários de manter a continuidade das políticas além dos ciclos eleitorais. A transição para a próxima edição do foro, prevista para as Ilhas Canarias em março de 2027, será o principal indicador de se o compromisso de San Pedro Sula foi, de fato, um ponto de partida para a ação ou apenas um exercício de retórica diplomática.

O que permanece incerto é como a região conciliará a necessidade de investimentos massivos em infraestrutura com as restrições fiscais de muitos governos locais. Observar a implementação prática dos mecanismos de financiamento para PMEs será crucial para entender se as intenções declaradas pelo foro encontrarão eco na realidade econômica dos territórios iberoamericanos.

A transformação do turismo iberoamericano passa inevitavelmente por um teste de execução onde a tecnologia e a governança precisam caminhar juntas para gerar impacto social duradouro. O tempo dirá se esta nova arquitetura de colaboração será suficiente para posicionar a região como um laboratório de inovação aplicada, capaz de oferecer modelos que priorizem o desenvolvimento humano acima da simples acumulação de cifras.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España