A promessa da prancheta digital, onde a complexidade de um edifício inteiro pode ser modelada em 3D, está esbarrando em um gargalo prosaico, mas paralisante: o tamanho dos arquivos. Em um painel organizado pela HP durante o Congresso Mundial de Arquitetos da UIA, em Barcelona, executivos da gigante de tecnologia e do prestigiado escritório Foster + Partners soaram o alarme: o setor enfrenta um problema de “obesidade digital” que gera atrasos, erros e custos significativos.

O diagnóstico é direto. Arquivos de projetos tornaram-se tão massivos que equipes podem levar até duas horas apenas para carregar um modelo, segundo Jim Nottingham, vice-presidente sênior da HP. Essa espera, segundo ele, é “o inimigo”, um ponto de atrito onde a informação se perde e o projeto se desvia do planejado. Para Nadeem Mir, sócio sênior e chefe de tecnologia da Foster + Partners, a situação é um “trem desgovernado” que torna a colaboração com outros escritórios e fornecedores “incrivelmente difícil”.

O peso da complexidade

A transição para a modelagem 3D, embora tenha enriquecido a fase de design, gerou uma “explosão no tamanho dos arquivos”. Mir, da Foster + Partners, relata de forma contundente o impacto prático: designers de interiores parceiros, de estruturas menores, simplesmente não conseguem operar no mesmo ambiente computacional exigido pelos projetos. “Estou arruinando a vida deles”, afirmou, ecoando a frustração de clientes. A conclusão é taxativa: “o legado de usar projetos baseados em arquivos simplesmente não vai mais funcionar”.

O problema transborda da tela para o canteiro de obras. Daniel Martinez, outro vice-presidente da HP, conectou essa complexidade digital a falhas na construção. Ele estima que hoje cerca de 15% do custo de um projeto de construção está relacionado a retrabalho e erros. A riqueza de informações no modelo digital, que deveria ser uma vantagem, torna-se um fardo na fase de execução, abrindo uma oportunidade clara para otimizar processos e reduzir desperdício.

IA: a solução e o dilema

Como esperado, a inteligência artificial foi apontada como uma possível rota de fuga. Para a HP, a IA pode ir além de acelerar a fase inicial de design. Nottingham vislumbra uma “IA agentiva” que elimina o atrito e as tarefas mundanas, como a gestão de dados e a compatibilização entre ferramentas, permitindo que os arquitetos se concentrem no trabalho criativo. A ideia não é substituir o arquiteto, mas sim “eliminar todo o trabalho enfadonho que atrapalha a expertise criativa”.

Apesar do otimismo, o setor pisa com cautela. Nadeem Mir adverte contra a “febre da IA”. Embora reconheça o potencial, ele salienta a importância de entender as limitações da tecnologia e mirar em oportunidades concretas, em vez de “fazer IA por fazer”. A principal preocupação é a natureza de “caixa-preta” de muitos modelos. “Você precisa ter um nível de compreensão do que está acontecendo naquela caixa-preta para poder avaliar o que está voltando de forma objetiva”, ponderou.

O dilema da arquitetura moderna está posto. O paradigma de arquivos digitais pesados se esgotou, mas a transição para um novo modelo, provavelmente centrado em plataformas na nuvem e assistido por IA, ainda é um campo minado de desafios técnicos e culturais. A busca é por uma tecnologia que sirva à criatividade, não que a afogue em gigabytes.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen