O ano de 2018 marcou um ponto de virada na indústria da moda, forçada a confrontar sua própria imagem após inúmeras acusações de abuso de poder. Fotógrafos de renome como Patrick Demarchelier, Bruce Weber, Mario Testino e Terry Richardson foram afastados do mercado, banidos das páginas de publicações de prestígio como Condé Nast e Hearst. Naquele momento, a ausência desses nomes abriu espaço para novos talentos, com fotógrafas assumindo capas de revistas e museus dedicando exposições ao tema, como a retrospectiva de Lee Miller na Tate Britain e "The New Woman Behind the Camera" no Metropolitan Museum of Art.
A Virada do Jogo: O Retorno dos Grandes Nomes
Passada a poeira do escândalo, o cenário da fotografia de moda parece ter mudado. A indústria, agora em uma rota de recuperação, volta a celebrar o trabalho de fotógrafos homens que deixaram uma marca indelével no visual da moda. Exposições como "Penn & Fashion" na Maison Européenne de la Photographie (MEP), que coincide com a Paris Fashion Week, e a mostra "Fairyland: Love and Legends" de Tim Walker na National Portrait Gallery de Londres, sinalizam essa retomada. Documentários sobre Richard Avedon e retrospectivas de Bill Cunningham também estão no horizonte, indicando um renovado interesse pelo legado desses artistas.
O Legado Masculino e a Ascensão Feminina
Pascal Hoël, curadora da exposição "Penn & Fashion", observa que, embora o mundo da arte tenha sido historicamente dominado por homens, essa dinâmica está em transformação. As exposições dedicadas a Penn, Walker e Cunningham, por exemplo, destacam a centralidade das mulheres em seus trabalhos, desde esposas e musas até modelos icônicas como Lisa Fonssagrives, Jean Patchett e Naomi Sims. No entanto, a curadora ressalta a persistente disparidade: nomes como Lillian Bassman, Deborah Turbeville e Corinne Day raramente recebem exposições solo, sendo frequentemente agrupadas em mostras coletivas, como "The 90s: Art and Fashion" na Tate Britain. Terry Newman, professora e autora, aponta que a narrativa do "gênio masculino singular" ainda é mais fácil de contar para os museus, apesar da abundância de talentosas mulheres na fotografia de moda, estilismo e direção de arte.
Novos Olhares e Narrativas
O que diferencia fotógrafos como Penn, Walker e Cunningham é a singularidade de seu olhar. A exposição de Tim Walker, por exemplo, foca em retratos de pessoas reais e suas conquistas, com o amor como tema central, celebrando a diversidade de relacionamentos e comunidades. Já o trabalho de Bill Cunningham é descrito como um estudo antropológico através da moda, documentando eventos filantrópicos, o cotidiano e os desfiles. "Sua grande conquista foi entender que a moda não acontece apenas em revistas ou nas passarelas – ela acontece na rua, na forma como as pessoas se constroem e se reconhecem", disse Newman. Juergen Teller, com sua estética crua e anti-glamour, também é celebrado por desafiar a imagem polida da moda, embora Newman pondere que essa ruptura não elimina automaticamente as dinâmicas de poder de gênero.
O Futuro em Foco
O interesse pela fotografia de moda, especialmente o trabalho de mulheres na área, está crescendo. Pesquisas recentes, como a de Susanna Brown para um livro sobre fotografia de moda feminina, revelam que em 1941, Toni Frissell era a única mulher entre os fotógrafos de destaque da American Vogue. Hoje, a paisagem é diferente, com muitas mulheres brilhantes atuando na área e sendo reconhecidas por museus e galerias. Embora o legado de grandes mestres masculinos continue a ser celebrado, o caminho para a igualdade de reconhecimento e representação no universo da fotografia de moda segue em construção, com novas narrativas e olhares ganhando cada vez mais destaque.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





