A consultora Tempos Energía projeta um cenário de desequilíbrio acentuado para o mercado elétrico europeu durante o mês de agosto. A alta penetração da energia fotovoltaica deve reduzir drasticamente os preços durante as horas de maior incidência solar, com valores oscilando entre 28 e 45 euros por megawatt-hora (MWh). Em contrapartida, o período noturno deve sofrer uma elevação acentuada, atingindo patamares de até 140 euros por MWh, conforme a demanda se descola da capacidade de geração renovável.

Segundo a análise, o comportamento dos preços reflete a dependência estrutural do sistema em relação ao gás natural, que volta a ditar o custo marginal quando o sol se põe. A transição entre os períodos diurno e noturno revela a fragilidade do atual mix energético, que ainda não conta com capacidade de armazenamento suficiente para suavizar a curva de oferta ao longo das 24 horas do dia.

O limite do escudo solar

A dependência da radiação solar cria um efeito de "colchão" temporário durante o verão europeu, mas essa proteção tem prazo de validade. Antonio Aceituno, CEO da Tempos Energía, alerta que o cenário se inverterá drasticamente com a chegada do inverno. Em dezembro, a geração solar deve cobrir apenas um terço da demanda, operando com uma eficiência significativamente menor do que a observada nos meses mais quentes.

Sem o suporte da energia solar, a precificação da eletricidade voltará a ser guiada pelos custos do gás natural. A projeção para o último trimestre do ano é de que o MWh oscile entre 85 e 120 euros. Esse patamar representa uma escalada expressiva, sendo quase o triplo dos valores registrados no inverno anterior à crise energética atual, evidenciando que a estabilidade do mercado permanece vulnerável a fatores geopolíticos e logísticos externos.

Geopolítica e o gargalo do gás

O mercado de gás europeu enfrenta dificuldades para recompor seus estoques, com níveis de armazenamento situando-se abaixo da média dos últimos três anos. A necessidade de atingir a meta de 90% de ocupação dos depósitos antes do inverno obriga a Europa a buscar suprimentos adicionais de forma agressiva. Contudo, a oferta global permanece restrita, com exportadores como o Catar operando com volumes muito inferiores ao observado em anos anteriores.

Além das restrições de oferta, a infraestrutura logística sofre com as tensões no estreito de Ormuz, que impactam o transporte de metaneiros. Ataques e instabilidades na região, especialmente em instalações como a planta de Ras Laffan, forçam o mercado a precificar um prêmio de risco constante. A volatilidade, segundo a consultora, não é apenas ruído, mas um reflexo direto da insegurança no fornecimento de uma commodity essencial para a matriz energética do continente.

Implicações para o mercado e stakeholders

Para reguladores e consumidores, a situação sinaliza um período de adaptação complexo. A proibição total da compra de gás russo, prevista para janeiro de 2027, adiciona uma camada de pressão sobre o planejamento de longo prazo. O mercado de futuros já reflete esse receio, ignorando descontos de curto prazo e precificando o medo de escassez para o primeiro trimestre de 2027, quando a dependência de fontes externas será testada sob condições climáticas adversas.

A dinâmica entre a oferta renovável e a necessidade de backup térmico sugere que a volatilidade será a norma, não a exceção. Enquanto a primavera permanece como a estação mais barata devido ao equilíbrio renovável, o verão e o inverno exigirão mecanismos de gestão de demanda cada vez mais sofisticados para evitar choques tarifários.

Incertezas no horizonte energético

A grande incógnita para os próximos meses reside na capacidade de repor os estoques de gás sem disparar os preços globais. A evolução do conflito no Oriente Médio e a rapidez com que a OPEP conseguirá ajustar sua produção serão determinantes para o custo final da energia. O mercado observa atentamente se a tregua nas rotas de abastecimento se manterá após agosto, um ponto de inflexão crítico para a estabilidade dos preços.

O que se observa é um sistema em transição, onde a tecnologia fotovoltaica resolve parte do problema de custo, mas expõe a fragilidade da infraestrutura noturna. A capacidade de armazenamento e a diversificação das fontes de suprimento de gás serão os pilares que definirão se a Europa conseguirá evitar uma nova crise de preços nos próximos anos. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España