PARIS — O cenário na França é de greves de servidores públicos, escolas barricadas e portos bloqueados, acompanhado por uma paralisação orçamentária e a elevação dos juros da dívida. O temor de uma ascensão da extrema direita adiciona um componente de instabilidade política. O país se encontra imerso em uma crise multifacetada, que vai além de um único episódio de turbulência, manifestando-se em ruas, mercados financeiros e repartições públicas. A tradicional "rentrée" francesa, período de retorno às atividades após o verão, está longe de ser pacífica. Todas essas perturbações, embora com causas aparentes distintas, convergem para uma raiz comum: a dificuldade histórica da França em financiar seu robusto Estado de bem-estar social, um problema que se arrasta por duas décadas e agora é exacerbado pelos altos custos de endividamento, pela disparada dos preços dos combustíveis e pela incerteza política, enquanto a disputa pela sucessão do presidente Emmanuel Macron se intensifica.

O "Fim do Reinado" de Macron e a Tensão Fiscal

As finanças públicas francesas, já em situação delicada, continuam a se deteriorar, gerando apreensão nos mercados quanto a uma possível crise fiscal de grandes proporções, similar à que afetou a Grécia ou o Reino Unido em 2022. Pesquisas recentes indicam que a candidata de extrema direita, Marine Le Pen, poderia derrotar seus adversários na eleição presidencial agendada para a primavera. A tensão se manifesta concretamente com professores e outros servidores públicos planejando manifestações contra um congelamento salarial, enquanto o governo tenta aprovar o orçamento. Eles se unem a milhares de estudantes que protestam contra o subfinanciamento da educação, resultando em instalações precárias e falta de professores. Os protestos estudantis, que começaram em meados de setembro, ganharam escala nacional, com imagens de confrontos entre jovens e policiais circulando amplamente. Centenas de escolas foram fechadas, dezenas danificadas, e houve prisões e feridos. Essa agitação social reflete um mal-estar profundo, que abala também os mercados financeiros. O rendimento dos títulos franceses de dez anos atingiu níveis próximos a 5%, um dos mais altos na União Europeia, sinalizando a desconfiança dos investidores na capacidade do governo de gerenciar os crescentes desafios.

Mecanismos da Crise e Paralelos Históricos

Jean-Yves Camus, cientista político da Fundação Jean Jaurès, descreve a situação como um "fim de règne", indicando o esgotamento do ciclo político de Macron. Essa apreensão não aponta necessariamente para um colapso financeiro iminente, mas sim para um "desastre ferroviário em câmera lenta", como define Kenneth Rogoff, professor de economia de Harvard. A França já vivenciou períodos de forte agitação social, como os protestos dos "coletes amarelos" entre 2018 e 2020, que começaram com a alta dos combustíveis e evoluíram para demandas por justiça econômica e política. A atual crise energética, com a alta dos preços do petróleo e gás devido à guerra no Irã, reacende tensões sociais semelhantes. O governo Macron tem buscado mitigar o impacto, como a liberação de reservas estratégicas de combustíveis pelo G7. No entanto, a energia é apenas uma faceta do problema fiscal francês. A dívida pública ultrapassa os US$ 4 trilhões (119% do PIB), e o custo para servir essa dívida deve atingir US$ 100 bilhões em 2027. Soma-se a isso o envelhecimento populacional, que eleva os gastos com saúde e aposentadorias, e o aumento das despesas militares.

Implicações para o Futuro e o Papel da Extrema Direita

Para financiar essas demandas e controlar o déficit, o governo propõe aumentar impostos e congelar gastos sociais. A aprovação do orçamento, embora provável, exigirá negociações complexas e poderá envolver mecanismos excepcionais do Executivo. A dependência do governo em relação ao partido de Marine Le Pen, o Reagrupamento Nacional, que detém 118 cadeiras na Assembleia Nacional, é crucial. Analistas especulam que Le Pen poderia instruir seus parlamentares a se absterem, evitando a responsabilidade fiscal caso vença a eleição. A agenda econômica de Le Pen será escrutinada em busca de sinais de maior realismo fiscal desde sua campanha de 2022, quando foi criticada pela falta de credibilidade. Caso eleita, a contribuição francesa ao orçamento da União Europeia entraria em xeque, evocando paralelos com o Brexit. Mujtaba Rahman, da Eurasia Group, compara a eleição francesa ao referendo de 2016 no Reino Unido, alertando para uma crise política e constitucional existencial.

Perguntas em Aberto e o Legado do Estado de Bem-Estar

A vitória de Le Pen não é garantida, e sua candidatura enfrenta desafios legais e de imagem. Contudo, a combinação de dificuldades econômicas e agitação social pode impulsionar candidatos mais radicais, tanto da direita quanto da esquerda. Independentemente do resultado eleitoral, a crise atual pode forçar uma conclusão inevitável: a França pode não ser mais capaz de sustentar seu modelo de Estado de bem-estar social como o conhece. A dificuldade em conciliar as aspirações sociais com a capacidade fiscal é a fonte mais profunda da raiva popular, evidenciando um país que luta para manter suas promessas e ambições. Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney