Os Estados Unidos enfrentam uma crise de legitimidade que transcende a política partidária, atingindo os fundamentos da estabilidade global. Segundo o cientista político Francis Fukuyama, em artigo recente, o país estaria deixando de ser uma sociedade de alta confiança para se tornar um epicentro de incertezas, tanto para seus cidadãos quanto para seus aliados internacionais.
A tese central é que a ordem mundial, historicamente sustentada pela previsibilidade das ações americanas, está sob risco devido a lideranças que desvalorizam normas constitucionais e compromissos internacionais. Para Fukuyama, a deterioração institucional nos EUA reflete uma polarização afetiva que substituiu o debate político pela demonização do oponente, minando o capital social necessário à democracia.
A anatomia da confiança institucional
A confiança, conforme delineada por Fukuyama, desdobra-se em duas esferas: a adesão às instituições formais, como o Estado de Direito, e o capital social, que compreende normas informais de cooperação entre cidadãos. Quando as instituições deixam de ser previsíveis e a honestidade se enfraquece como pilar de conduta, a sociedade se fragmenta. O autor recorre a “Getting to Denmark” como metáfora para sociedades que alcançaram um equilíbrio raro entre eficiência governamental e baixa corrupção.
Historicamente, os EUA foram descritos como uma sociedade de alta confiança, em que a “arte da associação” — conceito imortalizado por Alexis de Tocqueville — permitia que cidadãos se unissem em torno de propósitos comuns. Contudo, essa estrutura vem sendo erodida por décadas de polarização crescente. O fenômeno não é isolado, mas é agravado por fatores tecnológicos e educacionais que criaram “universos informacionais paralelos”, impedindo um entendimento compartilhado da realidade empírica.
O mecanismo do descrédito populista
O mecanismo que sustenta essa crise, na leitura do autor, é alimentado pelo populismo, que se aproveita da desconfiança para consolidar poder. Ao tratar opositores como inimigos existenciais, lideranças populistas desgastam o tecido da civilidade. No caso americano, a ascensão de Donald Trump marcou uma ruptura: o uso expansivo do poder executivo para contornar freios e contrapesos e a retórica de confronto com aliados tradicionais transformaram a política externa em um exercício mais transacional e de curto prazo.
Episódios como a proposta de compra da Groenlândia ao governo dinamarquês exemplificam essa mudança de paradigma. Ao agir de modo desalinhado dos princípios de coordenação e defesa mútua que pautaram a ordem ocidental no pós-1945, a liderança americana teria abalado a base de confiança que sustentava a OTAN (criada em 1949) e outras alianças. Quando a volição de um líder substitui compromissos duradouros, a previsibilidade — essencial para o comércio e a segurança global — se enfraquece.
Stakeholders e a nova ordem global
Para os aliados europeus, a lição é clara: a dependência excessiva da garantia americana tornou-se um risco estratégico. A percepção de que os EUA podem não honrar o Artigo 5º da OTAN, caso o interesse político doméstico assim dite, força a Europa a buscar maior autonomia em sua própria segurança. A desconfiança, uma vez instalada, é difícil de reverter porque exige estabilidade de longo prazo que a política americana recente tem dificuldade em oferecer.
No Brasil e em outras democracias emergentes, o impacto aparece na própria validação de seus modelos institucionais. Quando o país que servia de farol democrático flerta com o autoritarismo, o exemplo enfraquece defesas democráticas globais. A polarização americana não é apenas um problema doméstico; ela serve de roteiro para movimentos populistas em diversas partes do mundo, que se sentem legitimados a questionar a integridade de processos eleitorais e a autoridade da ciência.
O futuro da reconstrução democrática
O que permanece incerto é se o sistema americano possui resiliência suficiente para corrigir sua trajetória. Fukuyama aponta que as eleições continuam sendo o principal mecanismo de correção, mas o dano causado à cultura política é profundo. O autor mantém algum otimismo ao lembrar que eleitores podem repudiar lideranças autoritárias, como observado em outros contextos democráticos, desde que haja mobilização em torno de valores comuns.
Observar as próximas movimentações eleitorais nos EUA será fundamental para entender se o país conseguirá retomar seu papel como garantidor de normas globais ou se o mundo entrará em um período de maior fragmentação. A reconstrução da confiança não será rápida; depende menos de figuras individuais e mais da recuperação de instituições básicas que garantem previsibilidade e honestidade na vida pública.
Com base em análise publicada na Persuasion
Source · Persuasion




