A indústria brasileira de carne bovina se prepara para uma corrida que pode terminar cedo demais. A cota de exportação para a China em 2027, de 1,128 milhão de toneladas, corre o risco de ser totalmente preenchida até março ou abril, segundo projeção de Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). Os embarques devem começar a ser contabilizados já em novembro de 2026.

A antecipação é uma faca de dois gumes. Os exportadores se apressam para aproveitar a tarifa de importação de 12%, antes que ela salte para punitivos 55% para volumes que excedam a cota. O efeito colateral, no entanto, é a provável repetição do “sufoco” vivido em 2026, quando o esgotamento do volume em julho deixou o setor sem seu principal cliente por quase metade do ano, pressionando margens e criando um vácuo operacional.

A cota como problema

A dinâmica transforma o que seria uma boa notícia — a forte demanda chinesa — em um complexo desafio de gestão. As salvaguardas impostas por Pequim, desenhadas para proteger a indústria local, criaram um ciclo de boom e buste dentro do mesmo ano para os frigoríficos brasileiros. A corrida para garantir espaço na janela de tarifa reduzida gera uma concentração de embarques no início do período, seguida por uma paralisação abrupta.

O movimento sugere uma vulnerabilidade estrutural na dependência do mercado chinês. A Abiec estima que, sem as restrições, o Brasil poderia ter exportado 2 milhões de toneladas para o país asiático em 2026. Agora, a própria associação defende que os embarques sejam “dosados”, possivelmente por meio de alguma medida governamental, para evitar o esgotamento precoce da cota. A ideia de dividir o volume entre as empresas ganha força no setor como forma de mitigar os impactos.

Incertezas no horizonte

Adiciona-se à equação a incerteza sobre o “apetite” chinês. Segundo a Abiec, a China opera com estoques elevados de proteínas, incluindo carne bovina, suína e de aves, o que pode moderar o ritmo das compras quando as vendas forem retomadas. A questão é se a demanda será tão voraz a ponto de justificar a corrida desenfreada dos exportadores brasileiros.

Enquanto o setor lida com a armadilha chinesa, outra frente de pressão permanece aberta: o embargo da União Europeia. Desde setembro, o Brasil não vende carne bovina ao bloco devido a exigências sanitárias sobre o uso de antimicrobianos. Embora represente um volume menor que a China, o mercado europeu paga os melhores preços, e sua ausência aperta ainda mais as margens dos frigoríficos.

O cenário desenha um dilema estratégico para o agronegócio brasileiro. Ser o maior fornecedor global de carne bovina expõe o país não apenas a oportunidades, mas também às complexas regras e vulnerabilidades de seus principais clientes. A gestão da cota chinesa é um teste sobre a capacidade do setor de transformar volume em valor de forma sustentável, e não apenas em uma corrida de curto prazo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney