A ascensão de partidos populistas e nacionalistas, como o Alternative für Deutschland (AfD) na Alemanha e o movimento MAGA nos Estados Unidos, pode ser explicada menos pela falha na distribuição de bens materiais e mais pela distribuição desigual de respeito. Essa é a tese central de Francis Fukuyama, que, em artigo para a Persuasion, argumenta que a raiva e o sentimento de marginalização social em parte da população são motores poderosos para o apoio a essas legendas.

O argumento de Fukuyama encontra especial ressonância na Alemanha. O AfD tem sua base eleitoral concentrada nos estados da antiga Alemanha Oriental (GDR). Após a reunificação em 1990, o Ocidente alemão realizou um esforço considerável para integrar o Leste à sua próspera economia, transferindo recursos e benefícios sociais, além de estabelecer um Estado de direito que concedeu direitos formais aos cidadãos do antigo regime comunista. Contudo, essa igualdade formal não se traduziu em igualdade social.

O cientista político aponta que, paralelamente à integração econômica, a Alemanha, assim como outros países democráticos ricos, passou por uma profunda transformação social. Elites emergentes, compostas majoritariamente por profissionais com alta escolaridade e residentes em centros urbanos cosmopolitas, passaram a dominar partidos de esquerda — como os Democratas nos EUA, o Partido Trabalhista no Reino Unido e os Sociais Democratas na Alemanha. Esses partidos, que tradicionalmente representavam a classe trabalhadora, gradualmente se distanciaram de seus eleitores originais, que se sentiram cada vez mais ignorados e socialmente desvalorizados.

Essa desconexão entre as elites políticas e a população em geral cria um terreno fértil para narrativas populistas que prometem resgatar a dignidade e o respeito perdidos. O AfD capitaliza esse sentimento de ressentimento e marginalização, oferecendo uma voz para aqueles que se sentem deixados para trás pela globalização e pelas mudanças sociais rápidas. A análise de Fukuyama sugere que, para combater o avanço dessas forças, é necessário abordar não apenas as disparidades econômicas, mas também o profundo déficit de reconhecimento e respeito que aflige segmentos significativos da sociedade.

Com reportagem de Brazil Valley

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