Em uma breve rememoração publicada na revista Persuasion, o cientista político Francis Fukuyama revisitou a gênese de seu ensaio mais famoso e controverso, “O Fim da História?”. O texto, que se tornaria um marco do pensamento pós-Guerra Fria, nasceu de uma palestra preparada no inverno de 1988-89 para a Universidade de Chicago, um ano antes da queda do Muro de Berlim.

A encomenda partiu de um ciclo de palestras sob o tema “O Declínio do Ocidente”. Fukuyama, no entanto, propôs uma visão contrária. Sua tese, que argumentava sobre a consolidação da democracia liberal como forma final de governo humano, foi uma deliberada injeção de otimismo em um ambiente intelectual ainda cético sobre a resiliência do Ocidente. A ideia não era o fim dos acontecimentos, mas o fim da evolução das ideologias, um conceito que ele mesmo credita ao filósofo alemão G.W.F. Hegel.

O otimismo de 1989

O contexto da origem do ensaio é fundamental para entender seu impacto. Fukuyama escrevia no crepúsculo da União Soviética, quando o capitalismo democrático parecia ter vencido a grande batalha ideológica do século XX. A proposta de que a história, no sentido hegeliano de uma progressão dialética de ideias, havia chegado a uma síntese final na democracia liberal, capturou o zeitgeist de uma década que terminava com a vitória aparente de um dos lados.

Publicado na revista The National Interest no verão de 1989, o artigo se tornou um fenômeno. Ele oferecia uma moldura teórica poderosa para interpretar a derrocada do comunismo e o que parecia ser uma marcha inexorável de países em direção a modelos ocidentais de governança e economia. Era a narrativa que o momento histórico pedia.

A história cobra seu preço

Três décadas depois, a tese de Fukuyama é mais lembrada por suas contestações do que por sua confirmação. A ascensão da China como uma superpotência autoritária, o ressurgimento da Rússia, a erosão democrática em países do Leste Europeu e a polarização política dentro das próprias democracias ocidentais, incluindo os Estados Unidos, compõem um cenário que desafia frontalmente o otimismo de 1989.

O “fim da história” tornou-se, ironicamente, um ponto de partida para analisar as novas fraturas globais. O ensaio, que nasceu para celebrar um triunfo, hoje serve como régua para medir as fragilidades do projeto liberal. A rememoração de Fukuyama sobre sua origem não é apenas uma curiosidade histórica; é um lembrete de como as certezas intelectuais são moldadas — e, por vezes, desfeitas — pelo próprio curso dos eventos.

A questão que Fukuyama levantou, e que o famoso título carrega em seu sinal de interrogação frequentemente esquecido, permanece em aberto. A história, ao que tudo indica, ainda não deu sua palavra final.

Com reportagem de Brazil Valley

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