Acionistas da Alphabet votarão nesta sexta-feira uma resolução que exige maior transparência sobre os riscos associados ao uso de serviços de nuvem e inteligência artificial da empresa por governos. O movimento ganhou tração após o Norges Bank Investment Management (NBIM), o maior fundo soberano do mundo, anunciar apoio à proposta, contrariando a recomendação da diretoria da gigante de tecnologia.

A iniciativa, denominada Proposta 11, é liderada pela Zevin Asset Management e conta com um grupo de mais de 40 investidores que gerem coletivamente US$ 1,15 trilhão. Embora a aprovação da medida seja considerada improvável devido à estrutura acionária da Alphabet, o suporte institucional sinaliza um crescente desconforto do mercado quanto à governança de dados em contratos públicos, segundo reportagem da Fortune.

O dilema da governança em contratos públicos

A preocupação central dos investidores reside na visibilidade que a Alphabet mantém sobre o uso de suas ferramentas após a implementação por clientes governamentais. O grupo argumenta que, uma vez que governos acessam a infraestrutura de nuvem e os modelos de IA, a empresa deve garantir mecanismos de intervenção caso identifique abusos, como vigilância, censura ou direcionamento indevido de indivíduos.

O debate ganhou contornos mais agudos após a revisão, em 2025, dos princípios de IA da Alphabet. Investidores apontam que a substituição de compromissos anteriores, que restringiam tecnologias projetadas para causar danos, por uma linguagem mais genérica sobre desenvolvimento “responsável”, fragilizou a supervisão. Para críticos, essa mudança torna as salvaguardas contratuais e a fiscalização direta pelo conselho de administração ainda mais vitais para proteger o valor de longo prazo da companhia.

Riscos operacionais e reputacionais

A coalizão cita o Projeto Nimbus, contrato de US$ 1,2 bilhão com o governo de Israel, como um exemplo emblemático onde as práticas de governança de dados podem não estar alinhadas com os princípios éticos da empresa. O receio é que a falha em gerir riscos de direitos humanos em contextos de conflito resulte em consequências legais, regulatórias e operacionais severas para a Alphabet.

Além dos riscos éticos, há uma preocupação latente com a capacidade da empresa de atrair talentos. Representantes de fundos que compõem a coalizão afirmam que o envolvimento em potenciais violações de direitos humanos afasta profissionais qualificados, que condicionam sua permanência na empresa a um distanciamento de práticas de vigilância em massa ou apoio a operações militares controversas.

A ambiguidade técnica da vigilância via IA

A tecnologia de IA possui a capacidade de agregar fluxos de dados díspares — como registros de localização, identificadores biométricos e metadados de comunicação — para traçar perfis detalhados de cidadãos. Especialistas alertam que a combinação de dados que, isoladamente, parecem inofensivos, cria uma zona cinzenta jurídica onde a vigilância em escala pode ser operacionalizada sem transparência pública.

A Alphabet, por sua vez, recomenda que os acionistas rejeitem a proposta, alegando que já possui uma estrutura robusta para privacidade e segurança de dados. A empresa sustenta que suas divulgações atuais são suficientes para garantir a transparência necessária, posicionamento que tem recebido apoio de outros grupos, como o Anti-Defamation League, que argumentam que a resolução foca de forma desproporcional em casos específicos.

Perspectivas para o setor de tecnologia

O caso da Alphabet reflete uma tendência mais ampla de escrutínio sobre as grandes empresas de tecnologia que fornecem infraestrutura para o Pentágono e outros órgãos estatais ao redor do mundo. A pressão por relatórios detalhados sobre o uso de IA não se limita ao Google, mas estende-se a Microsoft, Amazon e Apple, à medida que a integração dessas ferramentas se torna onipresente na administração pública.

O desfecho da votação, embora incerto quanto ao resultado prático, servirá como um termômetro para a disposição dos grandes investidores institucionais em intervir nas decisões estratégicas das gigantes de tecnologia. A questão que permanece é se o mercado aceitará a autorregulação das empresas ou se exigirá um nível de transparência que altere fundamentalmente a dinâmica de seus contratos governamentais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune