A artista sul-africana Gabrielle Goliath inaugurou na Chiesa di Sant'Antonin, em Veneza, a instalação "Elegy", que funciona como um pavilhão independente na 61ª Bienal de Arte. A presença da obra na cidade italiana ocorre meses após o ministro da Cultura da África do Sul, Gayton McKenzie, ter vetado a seleção original do comitê curatorial independente que representaria o país no evento global.

Segundo reportagem da Hyperallergic, a decisão de McKenzie, líder do partido de extrema-direita Patriot Alliance, foi motivada pela inclusão de uma homenagem às vítimas palestinas em Gaza. O governo alegou que o pavilhão estaria sendo usado para endossar mensagens geopolíticas, gerando um impasse jurídico que culminou na exclusão da proposta oficial e na subsequente iniciativa de Goliath de viabilizar a exposição por conta própria.

O luto como ato político

A série "Elegy" é composta por três instalações que homenageiam vítimas de violência sistêmica. A obra inclui tributos a uma estudante sul-africana vítima de feminicídio em 2014, às mulheres Nama e Ovaherero assassinadas pela Alemanha no início do século XX, e à poeta palestina Heba Abunada, morta em um ataque aéreo em 2023. Goliath utiliza o som como elemento central, onde vozes de mulheres e pessoas de gênero não-binário sustentam uma única nota musical até a exaustão, sendo substituídas por novas vozes em um ciclo contínuo de lamento.

A proposta editorial da obra sugere que o luto não é um estado passivo, mas um exercício de solidariedade. Ao converter a dor individual em uma performance coletiva, a artista propõe que a recusa em nomear atrocidades, seja por governos ou instituições culturais, aprofunda a violência. O luto, sob a ótica de Goliath, torna-se uma ferramenta necessária para a construção de coalizões e um impulso para mudanças sociais efetivas.

A acústica da cumplicidade

No espaço da igreja barroca, as vozes individuais fundem-se em um coro que reverbera nos corpos dos visitantes. A arquitetura do ambiente obriga o espectador a sentir a música fisicamente, eliminando a distância entre quem observa e quem é lembrado. Essa estratégia evita a objetificação das vítimas, mantendo-as presentes sem transformá-las em espetáculo visual, uma preocupação central na prática artística de Goliath.

A dinâmica criada pela instalação sugere que a responsabilidade do público transcende a simples memória. Ao expor a precariedade da vida, a obra atua como uma convocação para que o luto se converta em ação coletiva. A ausência de uma das telas, que permanece vazia como um convite ou um lembrete de perdas futuras, reforça a urgência do tema em um cenário global marcado por conflitos não resolvidos.

Diálogos na Bienal

A obra de Goliath integra um movimento mais amplo na Bienal de Veneza, onde diversos artistas têm utilizado suas plataformas para abordar a violência contemporânea e histórica. Trabalhos de nomes como Lawrence Abu-Hamdan, Amar Kanwar e Dana Awantani também exploram a intersecção entre som, memória e resistência política. A presença desses projetos sugere uma mudança na função do pavilhão nacional, que passa a ser questionado como instrumento de narrativa oficial versus voz dissidente.

Para o ecossistema artístico, o caso sul-africano levanta tensões sobre a autonomia de artistas frente a ministérios da cultura em regimes democráticos. A tentativa de censura estatal, ironicamente, acabou por conferir à obra de Goliath uma visibilidade distinta, transformando a Chiesa di Sant'Antonin em um ponto de convergência para o debate sobre os limites da liberdade de expressão e a responsabilidade ética da arte.

Perspectivas futuras

O que permanece incerto é como as instituições globais reagirão a essa crescente politização do luto em espaços culturais. A Bienal de Veneza, ao abrigar obras que desafiam narrativas estatais, continua a ser um termômetro das tensões geopolíticas mundiais, onde a arte atua como um campo de batalha para a memória coletiva.

A permanência de "Elegy" em Veneza até 31 de julho oferece ao público a oportunidade de avaliar se a arte consegue, de fato, transcender a barreira entre o sentimento e o compromisso político. A questão que fica é se o luto, quando organizado como uma força coletiva, possui a resiliência necessária para sustentar o debate público diante de crises que, frequentemente, buscam o silenciamento das vozes das vítimas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic