Antonio Garamendi, presidente da CEOE, e Josep Sánchez Llibre, presidente da Foment del Treball, articularam nesta semana uma pressão coordenada por um pacto nacional voltado à reestruturação do mercado de trabalho espanhol. Durante a apresentação de um estudo da Sociedade Barcelonesa de Estudos Econômicos e Sociais, ambos os líderes classificaram a combinação de escassez de mão de obra e altas taxas de absentismo como uma ameaça estrutural à competitividade do país.

A leitura central é que o mercado laboral espanhol enfrenta uma "emergência silenciosa" que exige o fim do que denominam como "pesimismo ideológico". Segundo os executivos, a solução depende da construção de um consenso que envolva o governo, empresas e agentes sociais, tratando a empregabilidade como um assunto de Estado acima de divergências políticas.

O impacto econômico do absentismo

O custo do absentismo é o pilar da preocupação empresarial. Garamendi detalhou que o fenômeno gera um impacto anual de 33 bilhões de euros, dividido quase equitativamente entre o setor privado, que absorve 17 bilhões, e o Estado, que arca com os 16 bilhões restantes. Para os líderes, esse cenário não é apenas um problema de gestão interna das empresas, mas uma falha sistêmica que sobrecarrega a produtividade nacional.

A proposta apresentada inclui o reforço da sanidade pública, com a ampliação do quadro de médicos e psicólogos, além de uma maior autonomia e recursos para as mutuas colaboradoras. A lógica é que a lentidão no sistema de saúde público prolonga licenças desnecessariamente, agravando o custo social e econômico que a economia espanhola, em um momento de transição tecnológica, não pode mais sustentar.

Déficit de talentos e novas competências

Além do absentismo, a escassez de profissionais qualificados em setores estratégicos como construção, hotelaria e cuidados, somada à falta de engenheiros, é apontada como um gargalo para o crescimento. Sánchez Llibre destacou que a inteligência artificial forçará uma adaptação rápida, onde a flexibilidade e a conciliação familiar tornaram-se fatores de retenção tão ou mais importantes que o salário nominal.

Para mitigar esse déficit, a estratégia defendida passa pelo fortalecimento da formação dual e pelo incentivo à presença feminina em carreiras STEM. Garamendi também sinalizou que a regularização de trabalhadores estrangeiros é uma medida necessária para suprir as lacunas imediatas do tecido produtivo, reconhecendo que a demografia espanhola impõe limitações que o mercado interno, isolado, não consegue resolver.

Tensões e stakeholders

A busca por esse pacto coloca o setor privado em rota de negociação direta com o governo. A tensão reside na capacidade de transformar diagnósticos em políticas públicas efetivas, especialmente em um ambiente onde as ideologias muitas vezes travam o diálogo social. A posição dos líderes é clara: a competitividade da Espanha depende da despolitização de temas técnicos.

Para o ecossistema empresarial, o movimento sugere uma mudança de postura, buscando influenciar a agenda pública através de dados concretos. O desafio para os reguladores é equilibrar a proteção social com a necessidade de eficiência operacional, enquanto competidores regionais observam se a Espanha conseguirá modernizar seu mercado de trabalho sem gerar novas fricções sociais.

Perspectivas e incertezas

O que permanece incerto é a disposição do governo em aceitar as propostas de gestão privada para a sanidade e a formação profissional. A eficácia desse pacto dependerá da velocidade com que essas medidas serão implementadas e da aceitação por parte dos sindicatos sobre as mudanças necessárias na dinâmica de trabalho.

O mercado observará atentamente se o apelo de Garamendi e Sánchez Llibre resultará em mudanças legislativas ou se ficará limitado ao debate público. O sucesso dessa iniciativa pode determinar a capacidade da Espanha de atrair investimentos e manter sua posição competitiva na Europa na próxima década.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España