A Sombra de Gaza no Caminho Democrata
Apesar de apresentarem um desempenho eleitoral que, em tese, lhes daria uma chance de conquistar ambas as casas do Congresso, os Democratas enfrentam dois desafios significativos rumo às eleições deste ano. O primeiro reside em uma questão de narrativa e nostalgia. Em 2018, ao se oporem a Donald Trump, os Democratas podiam evocar a memória de Barack Obama, cujo legado, certo ou errado, despertava anseios por um retorno à normalidade e respeito. A figura do primeiro presidente negro, com sua imagem de integridade familiar e um discurso de contenção ao "venal" Trump, serviu como um poderoso argumento para repudiar a primeira administração republicana. Atualmente, contudo, não há um análogo a essa narrativa nostálgica para impulsionar o eleitorado.
O segundo e mais persistente obstáculo para os Democratas, que os assombra há três anos, é a questão da Palestina. Uma pesquisa recente sugere que a recusa de Kamala Harris em adotar uma posição contra o que o artigo descreve como "genocídio em Gaza", alinhada à maioria dos eleitores Democratas, pode ter custado a ela a presidência. Embora candidatos com forte apoio pró-Palestina, como Abdul El-Sayed em Michigan e Melat Kiros no Colorado, demonstrem o potencial eleitoral dessa causa, muitos candidatos Democratas, assim como a estrutura nacional do partido, parecem falhar tanto no argumento moral quanto na estratégia de elegibilidade em relação a Gaza. Essa postura, somada ao que o artigo chama de "abandono cínico dos direitos trans" por políticos como Gavin Newsom e James Talarico, pode prejudicar a capacidade do partido de mobilizar eleitores de esquerda, especialmente os mais jovens.
A Falta de Nostalgia e o Peso de Biden
Ambos os problemas convergem para o coração da presidência de Joe Biden. Se em 2018 havia uma nostalgia palpável, ainda que talvez equivocada, por Obama, o mesmo não se pode dizer de Biden. Sua gestão foi profundamente impactada pela pandemia de Covid-19, que continuou a ceifar centenas de milhares de vidas nos EUA, além de ser marcada pelo apoio incondicional à ofensiva em Gaza e por constantes questionamentos sobre sua capacidade cognitiva. Esses fatores levaram à sua decisão de não buscar a reeleição, o que culminou na derrota de Kamala Harris e no retorno de Donald Trump à Casa Branca. Mesmo que Biden pudesse ativamente participar de campanhas, sua presença poderia ser mais prejudicial do que benéfica para os candidatos que buscassem seu apoio.
Três novas publicações oferecem um olhar crítico sobre a administração Biden, sua relação com a imprensa e a forma como o governo e os veículos de comunicação colaboraram para intensificar o conflito em Gaza. "How to Sell a Genocide: The Media’s Complicity in the Destruction of Gaza", de Adam H. Johnson; "Don’t Say Palestine: How the Media Manufactured Consent for Genocide", de Assal Rad; e "Crossing the Red Line: Biden, His Advisors, and Israel’s War in Gaza", de Akbar Shahid Ahmed, são cruciais para entender essa dinâmica. Se o Partido Democrata almeja conquistar o Congresso e representar a vontade popular, não pode se limitar a uma oposição genérica a Donald Trump. É preciso assumir as falhas da administração Biden e analisar por que milhões de potenciais eleitores rejeitaram Harris.
Mídia e Narrativa: A Cumplicidade na Guerra
As três obras em questão analisam a estreita colaboração entre a administração Biden e uma imprensa disposta a retratar Israel como vítima e a desumanizar os palestinos. Em um cenário eleitoral onde as margens são apertadas, a capacidade de atrair eleitores universitários, que não apenas se opõem a Trump, mas também lembram da repressão policial a protestos em seus campi sob a gestão Biden, torna-se fundamental. Uma leitura atenta desses livros revela o papel do partido em moldar uma política externa favorável ao conflito, ao mesmo tempo em que reprime dissidências internas. A forma como a cobertura de Gaza difere daquela dada à Ucrânia, por exemplo, expõe um duplo padrão na aplicação do "mito da ordem internacional baseada em regras".
Embora compartilhem temas e focos, os livros apresentam abordagens distintas. Adam H. Johnson, jornalista e crítico de mídia, adota um tom de "promotor", detalhando a quantitativa e qualitativa cumplicidade midiática. Assal Rad, historiadora e crítica de mídia, foca na análise macro, examinando manchetes e a linguagem utilizada para moldar a opinião pública. Akbar Shahid Ahmed, jornalista, opta por uma abordagem mais descritiva, buscando apresentar a perspectiva dos atores políticos envolvidos, mesmo que isso implique em não usar o termo "genocídio" diretamente, preferindo "guerra" para descrever o período. Essa escolha linguística, segundo o autor, visa apresentar a visão da administração Biden, embora critique as ações do governo.
Implicações e Perguntas em Aberto
A análise conjunta desses livros pinta um quadro sombrio da administração Biden e de seu aparato midiático, acusados de fabricar consentimento para um dos maiores massacres da memória recente. A obra de Johnson, em particular, utiliza dados contundentes, comparando o número de crianças mortas na Ucrânia e em Gaza para demonstrar como a cobertura midiática foi mais sensível ao conflito europeu, apesar da magnitude da tragédia palestina. Essa disparidade na cobertura, segundo os autores, mina a credibilidade do jornalismo em um momento crucial.
Apesar dos esforços em moldar a narrativa, o apoio à causa palestina tem crescido consistentemente. Os Democratas enfrentam um dilema: a maioria de seus eleitores rejeita a política externa da administração Biden, mas a liderança do partido, representada por figuras como Hakeem Jeffries e Chuck Schumer, permanece firmemente pró-Israel. A inclusão de três democratas abertamente pró-Israel em posições-chave no Comitê de Relações Exteriores da Câmara reforça essa percepção. O partido poderia se beneficiar ao seguir o exemplo de líderes mais progressistas, como o prefeito Zohran Mamdani, e aprender com as lições apresentadas nos livros.
O caminho a seguir para os Democratas é incerto. A manutenção da postura atual em relação a Gaza pode alienar segmentos cruciais de seu eleitorado, especialmente os jovens e progressistas, e comprometer seriamente suas chances de sucesso eleitoral. A questão que paira é se o partido conseguirá reorientar sua política e comunicação a tempo de evitar um resultado eleitoral desfavorável, que poderia levar a um Congresso dominado por forças conservadoras, espelhando a composição atual da Suprema Corte. A necessidade de uma reavaliação estratégica é premente, mas as divisões internas e a lealdade a narrativas estabelecidas tornam essa tarefa complexa.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub




