A Reflective, uma organização sem fins lucrativos de São Francisco, colocou sobre a mesa um plano que força uma das conversas mais difíceis sobre o futuro do planeta. A entidade publicou um roteiro de pesquisa para a injeção de aerossóis estratosféricos, uma forma de geoengenharia solar que busca replicar o efeito de resfriamento de erupções vulcânicas para conter o aquecimento global. A proposta detalha os experimentos, estudos e a infraestrutura necessários para que o mundo possa tomar uma decisão fundamentada sobre o uso da tecnologia.
O documento, no entanto, vai muito além de um simples cronograma científico. Ao defender abertamente a realização de experimentos em campo — liberando partículas na atmosfera para observar seus efeitos —, o roteiro da Reflective toca no nervo exposto de um debate que divide a comunidade científica e política. A questão central, que a proposta força a encarar, é se o maior risco está em pesquisar uma ferramenta de poder planetário ou em ignorá-la enquanto a crise climática se agrava. A leitura aqui é que o plano não busca apenas respostas científicas, mas catalisar uma decisão sobre o próprio ato de pesquisar.
O roteiro da controvérsia
O plano da Reflective é ambicioso e metódico. Estruturado em fases, ele começa com estudos de simulação e laboratório para refinar modelos sobre os impactos em ecossistemas e na agricultura. A etapa seguinte, e mais controversa, prevê o uso de aeronaves para liberar quantidades progressivamente maiores de dióxido de enxofre na estratosfera, começando com dez toneladas métricas e escalando para até 25 mil toneladas. O objetivo é reduzir drasticamente a incerteza sobre a "eficácia de resfriamento" da técnica. Segundo o relatório, um esforço coordenado poderia levar uma década e custar cerca de US$ 370 milhões; sem coordenação, o prazo subiria para 20 anos e o custo para quase US$ 1,4 bilhão.
Dakota Gruener, diretora-executiva da Reflective, afirma que a missão da organização é fornecer os dados para uma tomada de decisão informada, não advogar pelo uso da tecnologia. A percepção é que "o mundo talvez precise tomar decisões de grandes consequências em prazos muito mais curtos do que aqueles para os quais nosso sistema de pesquisa está preparado", disse ela, segundo a reportagem original da MIT Technology Review. A organização, que já levantou mais de US$ 20 milhões, posiciona o roteiro como uma "Versão 1", um documento concreto para que a comunidade científica possa debater, criticar e aprimorar.
Ciência vs. Governança
Do outro lado da trincheira estão centenas de acadêmicos que, desde 2002, assinam uma carta aberta pedindo um "acordo internacional de não uso" e a proibição de experimentos ao ar livre. Para este grupo, o problema da geoengenharia não é primariamente técnico, mas de governança. "A questão central é: quem controlaria uma tecnologia capaz de alterar o planeta?", questiona Aarti Gupta, professora da Universidade de Wageningen e uma das idealizadoras da iniciativa de não uso. Para ela e outros críticos, uma ferramenta com o poder de criar vencedores e perdedores em escala global jamais poderia ser governada de forma equitativa.
O argumento se aprofunda com a noção de "equidade intergeracional". Críticos como Wil Burns, da American University, temem que a implementação da tecnologia crie uma armadilha para as gerações futuras. Se o mundo continuar emitindo gases de efeito estufa, seriam necessários níveis cada vez maiores de geoengenharia para mascarar o aquecimento. Interromper o processo abruptamente causaria um "choque de interrupção", com um aumento súbito e catastrófico das temperaturas. Em contrapartida, defensores da pesquisa, como Sebastian Eastham, do Imperial College London, argumentam que é irresponsável não avançar para além das simulações. Para eles, experimentos bem desenhados podem fornecer respostas que horas de supercomputação não conseguem, e toda decisão difícil é tomada em um cenário de incerteza.
O roteiro da Reflective não resolve esse impasse. Ele apenas o torna mais nítido e urgente. A proposta força o mundo a confrontar se os riscos de pesquisar essa tecnologia são maiores ou menores do que os riscos de enfrentar uma crise climática sem todos os dados disponíveis. A alternativa a uma decisão informada, argumenta Gruener, não é a ausência de decisão, mas uma "decisão em meio ao pânico ou com base na falta de evidências". A questão que fica no ar é se alguma quantidade de dados científicos será suficiente para resolver um dilema que, em sua essência, é profundamente político.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · MIT Tech Review Brasil





