A Gerdau (GGBR4) apresentou um terceiro trimestre de 2026 com resultados que, em tese, agradaram os analistas do mercado financeiro. A siderúrgica registrou um lucro líquido de R$ 1,52 bilhão, um aumento de 39,7% em relação ao mesmo período do ano anterior. Esse desempenho foi sustentado, principalmente, pela performance sólida na América do Norte e por uma robusta geração de caixa livre. Mesmo com esses indicadores positivos, a ação GGBR4 fechou o dia 27 de outubro em queda de 2,75%, cotada a R$ 24,75, demonstrando uma reação de cautela por parte dos investidores.

O Motor Norte-Americano

A XP Investimentos destacou o balanço como positivo, atribuindo o sucesso à continuidade de um desempenho robusto na América do Norte. Os analistas da XP observaram uma expansão das margens na região em comparação com o trimestre anterior, fenômeno impulsionado pelo aumento nos preços do aço. Essa tendência favorável, segundo a XP, sugere um cenário promissor para os resultados do quarto trimestre de 2026. A Nucor, outra gigante do setor, também projeta lucros estáveis ou ligeiramente maiores para o próximo trimestre, reforçando essa perspectiva. Contudo, a XP alerta que volumes sazonalmente menores e a manutenção da unidade de Midlothian podem limitar avanços adicionais nas margens.

O Goldman Sachs corroborou essa visão, apontando que as operações na América do Norte apresentaram mais um trimestre de solidez, com uma margem EBITDA de 27,7% – a maior dos últimos 15 trimestres. Esse resultado foi sustentado por volumes resilientes de vigas e perfis, que cresceram 3% anualmente, preços realizados em alta de 5% em dólares na comparação trimestral, um controle de custos eficiente e uma carteira de pedidos que ultrapassa os 100 dias. O banco projeta que o efeito defasado dos reajustes de preços continuará a beneficiar os resultados no quarto trimestre, embora volumes menores e custos de paradas operacionais possam atuar como contrapesos.

Desafios Internos e Caixa Robusto

No cenário doméstico, as operações da Gerdau apresentaram um desempenho acima do esperado pelo Goldman Sachs, principalmente devido a um mix de vendas mais rentável, com menor participação das exportações. No entanto, o enfraquecimento da demanda interna emerge como uma preocupação significativa para os próximos trimestres. As vendas de aços longos caíram 12% em relação ao ano anterior, indicando uma desaceleração que pode ser parcialmente atribuída ao impacto dos juros elevados sobre o setor de construção civil. O mercado de aços planos também começa a sentir os efeitos do pico de importações indiretas. Para o 4º trimestre de 2026, a XP antecipa margens menores, à medida que os preços mais baixos do aço se incorporem aos resultados.

Um ponto de destaque positivo, segundo o Bradesco BBI, foi a forte geração de caixa, que atingiu R$ 1,4 bilhão no trimestre. Esse resultado foi apoiado por fortes lucros operacionais e um menor consumo de capital de giro. Essa capacidade de gerar caixa é um fator crucial para a sustentabilidade financeira da empresa, especialmente em um ambiente de juros altos e demanda interna volátil.

Implicações e Perspectivas

A Gerdau anunciou dividendos de R$ 0,34 por ação, resultando em um dividend yield anualizado de 5,4%, e manteve seu programa de recompra de ações. A XP Investimentos continua a ver a Gerdau como uma das suas preferidas no setor de Mineração e Siderurgia, baseada na sólida geração de fluxo de caixa livre (FCF) nos EUA e na exposição cambial favorável ao dólar, em contraste com um ambiente doméstico desafiador. O Goldman Sachs, por sua vez, reiterou uma recomendação neutra para a Gerdau, com um preço-alvo de R$ 29. O BBI também manteve uma recomendação neutra, mas reconhece que a resiliência na América do Norte e o câmbio favorável podem continuar a impulsionar os lucros e sustentar o valuation da empresa nos próximos trimestres.

Perguntas em Aberto para o Mercado

Apesar dos resultados trimestrais positivos, a queda nas ações GGBR4 levanta questões sobre as expectativas futuras do mercado. A resiliência da operação norte-americana é um ponto forte, mas a capacidade da Gerdau de navegar pela desaceleração da demanda doméstica e pela pressão das importações será fundamental. O impacto dos juros elevados na construção civil e a dinâmica dos preços do aço no mercado global também merecem atenção.

O que se observa é um cenário de duas velocidades: um desempenho robusto nos EUA que sustenta os lucros e a geração de caixa, contrastando com os desafios e incertezas do mercado brasileiro. A forma como a Gerdau gerenciará esses dois ambientes distintos definirá sua trajetória nos próximos trimestres. A recomendação neutra de alguns analistas sugere que o mercado ainda está ponderando esses fatores, buscando um equilíbrio entre os pontos fortes e os riscos inerentes ao setor siderúrgico.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney