A Gerdau se tornou uma empresa de duas realidades. No primeiro trimestre, a siderúrgica gaúcha vendeu volumes de aço quase idênticos no Brasil (1,32 milhão de toneladas) e na América do Norte (1,28 milhão). A rentabilidade, no entanto, conta uma história completamente diferente: a operação norte-americana gerou um EBITDA de R$ 2,25 bilhões, enquanto a brasileira entregou apenas R$ 578 milhões. A companhia, na prática, já opera como uma siderúrgica americana.
O problema, ou a oportunidade para investidores, é que seu preço na bolsa ainda não reflete essa transformação. Segundo reportagem do Brazil Journal, a Gerdau negocia a um múltiplo de apenas 4 vezes seu valor sobre o EBITDA (EV/EBITDA), no piso de sua faixa histórica. Siderúrgicas puramente americanas, em comparação, são avaliadas em cerca de 7,5 vezes. A tese que começa a ganhar tração no mercado é se a Gerdau representa uma forma subavaliada de se expor ao ciclo de investimentos nos EUA, descolada da narrativa de concorrência com o aço chinês que domina o debate no Brasil.
O motor americano
A rentabilidade extraordinária da Gerdau nos Estados Unidos é fruto de uma tempestade perfeita. Do lado da demanda, a empresa surfa uma onda de investimentos em infraestrutura, na expansão de redes elétricas e, crucialmente, na construção de data centers para alimentar a revolução da inteligência artificial. Como disse um analista à reportagem original, na corrida do ouro, quem de fato enriqueceu foi quem vendia pás. Hoje, as “pás” são aço, cobre e chips.
Essa demanda estrutural permitiu que a Gerdau e suas concorrentes aumentassem preços mesmo sem um aquecimento generalizado da economia. O CEO Gustavo Werneck afirmou que a carteira de pedidos (backlog) segue firme, sustentada pela construção de data centers. Do lado da oferta, o mercado americano permanece protegido pelas tarifas de 50% sobre o aço importado, impostas durante o governo Trump. Essa combinação levou a margem EBITDA na América do Norte a 24,1% no primeiro trimestre, um patamar que analistas acreditam poder se sustentar ou até aumentar, contra apenas 9,2% no Brasil.
O desconto brasileiro
Apesar do sucesso americano, o valuation da Gerdau continua ancorado pela sua exposição ao Brasil, onde a competição com o aço importado, principalmente da China, comprime as margens. Medidas antidumping adotadas pelo governo ajudam, mas não resolvem o problema por completo, já que não cobrem todo o portfólio de produtos. A decisão sobre o aço laminado a quente, um item chave, ainda é aguardada.
Contudo, a companhia trabalha para melhorar a operação local, com um investimento de R$ 3,2 bilhões para expandir a mina de Miguel Burnier, que pode adicionar mais de R$ 1 bilhão ao EBITDA anual. Ao mesmo tempo, o ciclo de investimentos pesados está chegando ao fim, o que deve aumentar a geração de caixa livre e abrir espaço para dividendos e programas de recompra de ações. O principal risco no radar é uma eventual flexibilização das barreiras comerciais nos EUA, especialmente em uma renegociação do acordo com México e Canadá (USMCA), o que poderia pressionar os preços que hoje sustentam as margens recorde.
Para o investidor, a questão central é se a rentabilidade nos EUA é um novo normal ou um pico passageiro. A resposta definirá se a Gerdau é, de fato, uma empresa americana negociando a preço de Brasil ou se o desconto atual já precifica corretamente os riscos de uma normalização de margens e os desafios estruturais de seu mercado de origem.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech





