Ghent, uma cidade histórica na Bélgica, transformou-se em um modelo de sucesso na adoção de dietas plant-based, com um programa notável que incentiva seus cidadãos a deixarem de lado carne e peixe às quintas-feiras. A iniciativa, conhecida como "Veggie Thursday" (Quinta Veggie), não apenas mudou os hábitos alimentares de milhares de pessoas, mas também demonstrou o poder de políticas públicas focadas na alimentação para moldar comportamentos em larga escala.

Em 2014, a cidade já apresentava um índice de 13% de flexitarianos, aqueles que buscam reduzir o consumo de produtos de origem animal. Este ano, esse número disparou para impressionantes 83%. A mudança não se restringe a um nicho, mas permeia toda a sociedade ghentiana: escolas primárias, creches, centros comunitários, lares de idosos, refeitórios de empresas e restaurantes aderiram à proposta, servindo menus sem carne e peixe às quintas-feiras.

O Mecanismo por Trás da Mudança

A estratégia de Ghent para convencer sua população a abraçar a alimentação à base de plantas é multifacetada. Começa cedo, nas escolas, onde crianças como as da BS De Stadspoort recebem pratos como sopa de chicória, falafel, tagine de vegetais mediterrâneos e cuscuz. A aceitação, mesmo que com algumas caretas iniciais, é notável, com muitos pedindo repetição e optando por frutas como sobremesa. Essa introdução precoce a alimentos vegetarianos e veganos é crucial para formar hábitos duradouros.

Além do ambiente escolar, a cidade promove ativamente o "Veggie Thursday" em diversos outros setores. A adesão voluntária de empresas e restaurantes, somada ao incentivo governamental, cria um ecossistema propício à mudança. A ideia não é impor uma dieta, mas sim apresentar alternativas saborosas e acessíveis, desmistificando a percepção de que uma dieta sem carne é restritiva ou sem graça. A divulgação de receitas, eventos e o apoio a estabelecimentos que oferecem opções plant-based são pilares dessa estratégia.

Lições para Políticas Públicas

O sucesso de Ghent oferece um panorama valioso para outras cidades e governos que buscam promover dietas mais sustentáveis e saudáveis. A abordagem gradual, começando com um dia específico da semana e expandindo para diferentes instituições, permite uma adaptação mais suave da população. A ênfase na educação alimentar, especialmente para crianças, é um investimento de longo prazo que colhe frutos na formação de adultos conscientes.

O modelo belga sugere que a colaboração entre o setor público e privado é fundamental. O envolvimento de escolas, empresas e o setor gastronômico confere legitimidade e capilaridade à iniciativa. Além disso, a comunicação clara e positiva sobre os benefícios ambientais, de saúde e até econômicos da redução do consumo de carne pode ser um forte motivador. A cidade demonstra que é possível criar um "paraíso plant-based" sem ser radical, incentivando a participação de todos e celebrando cada passo em direção a um futuro mais verde.

Implicações e Próximos Passos

As implicações da experiência de Ghent vão além da simples adoção de um dia sem carne. Ela aponta para a viabilidade de políticas públicas que visam a sustentabilidade alimentar e a saúde pública. A redução do consumo de carne tem impactos significativos na diminuição da pegada de carbono, no uso de recursos hídricos e na promoção de dietas mais equilibradas, combatendo doenças crônicas associadas ao consumo excessivo de produtos de origem animal.

Para o Brasil, um país com forte tradição na pecuária e no consumo de carne, a lição de Ghent pode parecer distante, mas não é impossível de adaptar. Iniciativas que comecem em escolas públicas, refeitórios de grandes empresas e que promovam a culinária vegetariana e vegana com sabor e acessibilidade podem pavimentar um caminho semelhante. O desafio reside em adaptar a estratégia à cultura e à realidade local, mas o potencial de impacto positivo na saúde da população e no meio ambiente é inegável.

Perguntas em Aberto

Embora Ghent celebre um sucesso notável, algumas questões permanecem em aberto. Como manter o engajamento da população a longo prazo, especialmente para aqueles que ainda resistem à mudança? Quais os impactos econômicos para os produtores de carne e peixe locais e como a cidade está gerenciando essa transição? A sustentabilidade financeira das cantinas escolares e comunitárias que oferecem menus plant-based é um ponto a ser observado.

O futuro dirá se o "Veggie Thursday" de Ghent continuará a prosperar e a inspirar outras cidades ao redor do mundo. A capacidade de adaptação e a continuidade das políticas públicas serão cruciais para solidificar essa transformação alimentar e garantir que o "paraíso plant-based" seja um legado duradouro para as futuras gerações ghentianas e um exemplo para o mundo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Guardian UK Business