A busca por emprego, já um processo desafiador, tem sido marcada por uma frustração crescente: o "ghosting", prática pela qual empresas deixam de dar qualquer tipo de retorno a candidatos, mesmo após entrevistas. Este cenário, agravado pela automação de processos via inteligência artificial e por um mercado de trabalho instável com demissões recorrentes, leva muitos profissionais a questionarem suas escolhas de carreira e qualificações.

Um levantamento do ResumeBuilder.com aponta que 39% dos graduados universitários não escolheriam a mesma graduação se pudessem voltar atrás, e 22% cogitariam abandonar suas áreas de atuação ou o caminho de quatro anos de estudo. A sensação de que a formação acadêmica não se traduz em valor no mercado real é palpável, como expressou um usuário do Reddit: "Me formei em Ciências, mas sinto que não vale tanto assim no 'mundo real'. Pelo menos é o que as ofertas de emprego medíocres que recebi nos últimos 6 meses indicam."

A Estratégia por Trás do Ghosting

Especialistas alertam que, antes de culpar a formação ou a experiência, é crucial analisar a própria estratégia de busca por emprego. Stacie Haller, consultora sênior de carreira no ResumeBuilder.com, enfatiza que a relevância das qualificações para a vaga é primordial. "Se você não está qualificado para um emprego, você será ignorado. Ponto final", afirma. A pontualidade na candidatura também é um fator. Candidatar-se a vagas abertas há semanas pode diminuir drasticamente as chances de ser notado, especialmente em um cenário de alto volume de candidaturas.

Haller sugere que o foco deve ser em aplicar de forma mais estratégica, visando posições onde as habilidades e experiências se alinham com as exigências do empregador, independentemente da graduação ou histórico profissional. No entanto, ela ressalta que o ghosting após uma entrevista é "imperdoável" e totalmente responsabilidade da organização.

O Papel das Empresas e da IA

Jillian Phelan, executiva de RH com 25 anos de experiência, explica que atrasos na comunicação podem ocorrer quando empresas estão avançando com outros candidatos. Contudo, ela observa que muitas organizações deixaram de comunicar aos candidatos que não foram selecionados, um comportamento que se tornou frequente. Um trabalhador que preferiu não se identificar relatou ter esperado seis semanas para ser informado que a vaga que ele almejava já havia sido preenchida, mesmo após ter feito várias entrevistas e acompanhado o processo.

"Ghosting é algo que acontece em grupos de chat do ensino fundamental. Não deveria acontecer em um contexto profissional", lamentou. Apesar do grande volume de candidaturas, Haller argumenta que não há mais desculpas para a falta de comunicação, especialmente com o avanço da inteligência artificial, que facilita a automação de partes do processo de recrutamento. "A IA está ajudando as empresas a agilizar respostas quando necessário. Não há mais desculpa", conclui.

Navegando em Águas Turbulentas

Para candidatos que se deparam repetidamente com o ghosting, Phelan sugere considerar outros tipos de cargos ou até mesmo indústrias distintas onde suas competências possam ser aplicadas. "Foque mais em como você pode traduzir suas habilidades para outra indústria ou um trabalho diferente", aconselha Haller. Ela incentiva a análise de quais posições demandam as habilidades que o profissional já possui.

Um profissional de jornalismo com 25 anos de carreira, após ser demitido, passou 18 meses buscando recolocação antes de migrar para o setor bancário em uma posição de entrada. Ele atribui a decisão de deixar a área de mídia tanto ao ghosting quanto às "realidades de negócios de uma indústria em dificuldades". Apesar disso, ele não se arrepende de sua escolha original, pois "pude fazer o trabalho que sonhava quando criança".

Perguntas em Aberto no Mercado

Ainda que o cenário seja desmotivador, o objetivo para os candidatos, segundo Phelan, não deve ser o de permitir que uma busca de emprego difícil os convença de que sua educação ou paixão não têm valor. O ghosting intensifica a sensação de desvalorização. A questão que permanece é como as empresas e o mercado de trabalho se adaptarão para oferecer uma experiência mais digna e transparente aos profissionais, especialmente em um contexto onde a tecnologia deveria, paradoxalmente, facilitar a comunicação.

Em última análise, a experiência do candidato reflete a saúde e a maturidade do mercado de trabalho. A transparência e o respeito na comunicação são pilares essenciais para construir relações de confiança, algo cada vez mais escasso em um ambiente profissional moldado pela velocidade e pela incerteza. A busca por soluções que promovam um diálogo mais eficaz entre empregadores e aspirantes a empregos continua sendo um desafio premente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company