Um consórcio de peso da indústria de defesa e tecnologia europeia formalizou a intenção de construir um sistema soberano de interceptação de mísseis balísticos. Airbus, Destinus, MBDA Deutschland, Safran e Thales assinaram uma carta de intenções para criar o Bliksem EXO, uma associação para desenvolver, produzir e dar suporte a um interceptador exoatmosférico. O anúncio ocorreu durante uma reunião da coalizão antibalística em Paris.

A iniciativa é uma resposta direta às novas realidades geopolíticas e ao avanço de ameaças como os mísseis hipersônicos da classe Oreshnik, citados nominalmente no projeto. O movimento sinaliza a busca da Europa por maior autonomia estratégica em um setor crítico de sua defesa, preenchendo uma lacuna que os sistemas atuais não cobrem e aprendendo com as lições operacionais do conflito na Ucrânia.

Uma defesa em camadas

O Bliksem EXO foi concebido para operar na camada superior da defesa antimísseis, muito acima da atmosfera. Sua missão é detectar, rastrear e neutralizar mísseis balísticos de alcance médio e intermediário (MRBM/IRBM) durante a fase intermediária de seu voo. A neutralização ocorre por meio de um impacto cinético direto, conhecido como ‘hit-to-kill’, que destrói o alvo pela força da colisão, sem a necessidade de uma ogiva explosiva.

Este sistema não compete, mas complementa as capacidades de defesa existentes na Europa, que se concentram na camada inferior (defesa terminal e de teatro). A integração dos sistemas criaria uma arquitetura de defesa multicamadas, aumentando a resiliência contra ataques complexos. O consórcio pretende se basear na experiência ucraniana para projetar um sistema robusto para as realidades da guerra moderna.

Soberania e interoperabilidade

Dentro do consórcio, os papéis são claramente definidos: a startup Destinus atua como líder e integradora do sistema; a MBDA alemã cuida do propulsor; a Safran, dos sistemas de guiagem; a Airbus, do comando e controle (BMC4I); e a Thales, da cadeia de radares e sensores. Essa divisão reflete uma aposta em um ecossistema industrial pan-europeu, combinando incumbentes e novos players.

O objetivo estratégico é duplo. Primeiro, garantir plena interoperabilidade com a estrutura de Defesa Aérea e Antimísseis Integrada (IAMD) da OTAN. Segundo, fortalecer a Iniciativa do Escudo Celeste Europeu (ESSI), cobrindo justamente a camada de alta altitude que hoje está ausente. O caminho é longo — um acordo vinculante é esperado em três meses, com um primeiro teste no espaço previsto para 2027 —, mas a direção é clara: a Europa está assumindo o controle de seu escudo estratégico.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España