O Brasil enfrenta um prazo crítico para ajustar suas cadeias produtivas de origem animal às novas exigências da União Europeia. Segundo Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS, o país dispõe de tempo hábil para evitar vetos, desde que ocorra uma atuação coordenada entre o governo brasileiro e a iniciativa privada. A declaração foi feita durante o evento Agro 360º, reforçando a urgência na implementação de sistemas de controle que atendam às demandas de rastreabilidade do bloco europeu.
Para o executivo, o gargalo não reside na capacidade das empresas exportadoras de cumprir os requisitos de produção, mas na necessidade premente de que o Estado brasileiro emita certificações oficiais. Enquanto a indústria já opera sob parâmetros de conformidade, a exigência europeia de garantias governamentais coloca o setor público em uma posição de protagonismo necessária para a manutenção do fluxo comercial.
O desafio da certificação oficial
A transição para as novas normas europeias coloca em evidência a diferença entre a conformidade privada e a chancela estatal. Tomazoni argumenta que, embora os produtos brasileiros já estejam alinhados à legislação exigida, o mercado europeu demanda uma camada adicional de validação que apenas o governo pode prover. Esse movimento reflete uma mudança estrutural nas relações comerciais, onde a rastreabilidade deixa de ser um diferencial competitivo e passa a ser uma condição básica de acesso.
O executivo ressaltou que o foco atual deve ser a solução operacional do problema, evitando análises retrospectivas sobre a demora na preparação do país. A meta estabelecida para setembro serve como um marco para que o Brasil demonstre sua capacidade de adaptação, sendo a parceria entre o setor público e a iniciativa privada o pilar fundamental para garantir que as garantias exigidas pela União Europeia sejam entregues em tempo hábil.
Equidade e barreiras comerciais
Ao abordar a natureza das restrições, Tomazoni pondera que as exigências da União Europeia, embora configurem barreiras comerciais, buscam estabelecer uma base de equidade com os produtores internos do bloco. O argumento é de que a legislação aplicada aos parceiros externos espelha as regras impostas internamente aos agricultores e pecuaristas europeus. Essa interpretação sugere que o Brasil não está lidando apenas com protecionismo, mas com uma padronização regulatória crescente no comércio global.
Essa dinâmica de mercado exige que o Brasil repense sua estratégia de longo prazo. A dependência de mercados exigentes obriga o país a investir em sistemas de controle e transparência que se tornem permanentes. A perspectiva é de que esse cenário de vigilância rigorosa sobre a origem dos produtos se torne o padrão, exigindo que o agronegócio brasileiro se integre tecnologicamente para manter sua relevância global.
Implicações para o agronegócio
A necessidade de adaptação rápida gera tensões imediatas para os exportadores, que dependem da agilidade do governo para evitar perdas significativas no volume de embarques. A pressão não é isolada; ela ocorre em um contexto de incertezas geopolíticas, onde a segurança alimentar e a proteção das cadeias de abastecimento tornaram-se prioridades estratégicas para diversas nações. O Brasil, como um dos maiores players do setor, encontra-se no centro desse debate.
Para os reguladores brasileiros, o desafio é equilibrar a soberania nacional com as exigências de transparência de mercados compradores. A falha em instituir mecanismos de controle robustos pode resultar não apenas em vetos temporários, mas em uma perda de confiança que impacta a reputação do produto nacional a longo prazo. A indústria, por sua vez, deve continuar a fornecer o suporte técnico necessário para que o governo consiga estruturar as garantias exigidas.
O futuro da rastreabilidade
O que permanece incerto é a velocidade com que o Estado conseguirá implementar as estruturas de certificação necessárias até o prazo de setembro. A capacidade do Brasil em transformar essas exigências em um sistema de rastreabilidade eficiente será determinante para a manutenção de sua competitividade em mercados premium. A questão central não é mais se o Brasil deve se adaptar, mas quão rápido ele consegue institucionalizar essa conformidade.
O setor deve observar atentamente os desdobramentos das negociações nos próximos meses. A tendência de aumento de barreiras relacionadas à sustentabilidade e segurança alimentar sugere que o Brasil precisará, inevitavelmente, de sistemas de controle mais sofisticados. A forma como essa transição será gerida definirá o futuro da balança comercial do agronegócio.
O cenário exige pragmatismo. A capacidade de resposta do Brasil diante dessa pressão europeia não apenas definirá o destino das exportações de origem animal neste semestre, mas servirá como um teste de resiliência para o modelo de exportação do país frente a um mundo cada vez mais regulado e atento à origem de cada produto que chega às prateleiras internacionais.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





