As imagens recentes do glaciar Aneto, o maior dos Pirineus, após um verão particularmente quente, pintam um quadro desolador. Onde antes se via um corpo robusto de neve e gelo, agora a rocha nua e o gelo sujo dominam a paisagem. Este cenário não é uma surpresa para os cientistas do Instituto Pirenaico de Ecologia (IPE-CSIC), que monitoram o retrocesso da massa de gelo há anos. Dados preliminares da campanha de setembro de 2025 indicam uma perda adicional de mais de dois metros de espessura média, acelerando um declínio já documentado. Para agravar a situação, o corpo principal do glaciar fragmentou-se, e a massa sob o Collado de Coronas foi reclassificada como um helo, resultando em três massas de gelo desconectadas – uma realidade alarmante em comparação com 2015.

O Termômetro da Cordilheira

A importância do Aneto transcende seu tamanho. Com aproximadamente 30 hectares, ele funciona como um termômetro para toda a cordilheira dos Pirineus. A perda de gelo na região é um fenômeno generalizado: de mais de 100 glaciares em 1850, restaram apenas 18 em 2022, uma redução de 92% da superfície glaciar desde o final da Pequena Idade do Gelo. Um estudo científico já publicou um título sombrio: "No hope for Pyrenean glaciers", prevendo que os Pirineus podem ficar sem gelo por volta de 2034, ou até antes, caso verões extremos como os de 2022 e 2023 se repitam. A perda de gelo não afeta apenas a paisagem; altera a erosão, o transporte de nutrientes e os ecossistemas de alta montanha, além de aumentar o risco de quedas de pedras, dificultando o acesso aos picos.

Um Declínio Acelerado

Os dados históricos confirmam a tendência de encolhimento. Entre 1981 e 2022, o Aneto encolheu 64,7%, e sua espessura média diminuiu 30,5 metros, de 32,9 para 11,9 metros. Este é o registro mais longo de perda de espessura de gelo nos Pirineus, com 41 anos reconstruídos. Embora estudos globais prevejam o pico de desaparecimento de glaciares entre 2041 e 2055, as estimativas para os Pirineus apontam para um fim mais precoce. Entre 2011 e 2020, o Aneto perdeu 24,3% de sua área e uma média de 8,5 metros de espessura, com reduções de até 21 metros em algumas áreas. Um indicador particularmente preocupante é a quase imobilidade do gelo, um sinal de que o glaciar está no limite.

Mecanismos de Agravamento

O problema é agravado por um ciclo vicioso: a neve sazonal que antes protegia o gelo antigo e escuro derrete mais cedo. Exposto, o gelo absorve mais radiação solar e se derrete mais rapidamente. A falta de uma zona de acumulação eficaz para repor o gelo perdido intensifica o declínio. O aquecimento global não apenas derrete o gelo, mas também altera a dinâmica dos ecossistemas de alta montanha, impactando a biodiversidade e os ciclos hidrológicos da região. A transformação dos Pirineus em um ambiente mais mediterrâneo é uma consequência direta dessa crise climática.

O futuro dos glaciares pirenaicos parece cada vez mais sombrio. As projeções científicas, aliadas às evidências visuais alarmantes, sugerem que a cordilheira pode em breve se tornar um testemunho do passado glacial. A perda contínua de massa de gelo levanta questões sobre a resiliência dos ecossistemas de montanha e a disponibilidade de recursos hídricos no longo prazo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka