A Globant, multinacional de serviços de tecnologia nascida em Buenos Aires, atravessa um momento decisivo em sua trajetória de 23 anos. Com uma queda superior a 70% em suas ações desde o início de 2025, a companhia busca redefinir seu modelo de negócio para sobreviver em um mercado onde a inteligência artificial ameaça a tradicional venda de horas de engenharia humana. Segundo reportagem da Forbes España, a empresa aposta agora nos 'AI Pods', um modelo de assinatura focado em resultados, para transitar de uma consultoria de desenvolvimento de software para uma organização nativa em IA.

O cenário financeiro da companhia reflete as dificuldades do setor de TI em adaptar-se à nova realidade de produtividade exponencial. Após anos de crescimento de dois dígitos, a receita da Globant registrou recuos recentes, forçando uma reestruturação que incluiu o desligamento de 3% da força de trabalho global em meados de 2025. Para Guibert Englebienne, cofundador e presidente da Globant X, o desafio atual não é puramente tecnológico, mas cultural e organizacional, exigindo que líderes abandonem práticas obsoletas para integrar agentes autônomos em seus processos produtivos.

A transição do modelo de negócio

A mudança proposta pela Globant busca desvincular a receita do tempo investido pelos desenvolvedores. Ao introduzir os 'AI Pods', a empresa pretende cobrar por 'tokens supervisionados', uma métrica que engloba o custo do modelo, o processo e o aprendizado acumulado. Englebienne argumenta que a tecnologia por si só é como 'magia' que raramente chega à produção, sendo a disciplina na implementação o diferencial para transformar esse potencial em valor real para grandes clientes como Google e Santander.

Essa estratégia de 'outcome-based' (baseada em resultados) enfrenta a resistência de clientes habituados a décadas de cobrança por horas de trabalho humano. A aposta da Globant é que, ao integrar dados e padrões de marca aos seus agentes, o software entregue não apenas velocidade, mas uma qualidade alinhada ao espírito da empresa contratante. O sucesso dessa iniciativa é vital para a companhia, que busca retomar o fôlego em um mercado que ainda observa com ceticismo a capacidade de consultorias tradicionais em manter margens diante da automação.

O papel da disciplina na era da IA

Englebienne utiliza a metáfora da Thermomix para ilustrar a mudança necessária na força de trabalho. Assim como o eletrodoméstico liberou chefs de tarefas mecânicas para que focassem na criatividade e no design do menu, a IA deve permitir que engenheiros foquem em arquitetura e soluções complexas. A falha, segundo o executivo, ocorre quando empresas implementam pilotos de IA sem redesenhar sua estrutura interna, mantendo os mesmos processos lentos de sempre.

O executivo ressalta que a tecnologia é a parte mais simples da equação. O verdadeiro entrave tem sido a transformação cultural e o alinhamento de incentivos dentro das organizações. Para a Globant, manter a agilidade de uma startup com quase 30 mil funcionários exige a institucionalização de hábitos, como o sistema StarMeUp, que utiliza tecnologia para reforçar a cultura interna e o reconhecimento entre pares, garantindo que a inovação seja um processo contínuo e não pontual.

Implicações para o setor de TI

A pressão sobre a Globant é compartilhada por gigantes como Accenture, Cognizant e EPAM. Todas enfrentam a mesma dúvida fundamental: como sustentar o crescimento quando a IA multiplica a produtividade por ordens de grandeza? A resposta, segundo a visão apresentada, reside na capacidade de criar barreiras competitivas que vão além do código — integrando humanos e IA em processos que geram valor único e difícil de replicar por novos competidores apoiados por aceleradoras como a Y Combinator.

Para o ecossistema brasileiro e latino-americano, a trajetória da Globant serve como um parâmetro de resiliência. A empresa provou ser possível construir uma multinacional tecnológica a partir da periferia global. O desafio agora é provar que esse modelo de 'periferia para o mundo' é sustentável sob a pressão de uma tecnologia que, teoricamente, nivela as capacidades de desenvolvimento de software em escala global.

Perspectivas e incertezas

O futuro da Globant depende da adoção em massa dos 'AI Pods' e da capacidade de converter o pipeline de 350 milhões de dólares em receita recorrente efetiva. O mercado continuará a observar se a empresa conseguirá transformar sua estrutura de custos e receitas antes que a concorrência acelere a obsolescência do modelo de consultoria tradicional.

A questão central que permanece é se as grandes corporações estão preparadas para a mudança cultural exigida por Englebienne. A transformação da IA de uma promessa de eficiência em um motor de resultados financeiros sólidos ainda é uma jornada em aberto. Acompanhar a execução dessa estratégia será fundamental para entender o próximo ciclo de valor no setor de tecnologia.

A transição da Globant não é apenas sobre software, mas sobre a redefinição de como o trabalho intelectual será valorizado e entregue na próxima década. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España