Em ano de eleições presidenciais no Brasil, o Goldman Sachs identificou a curva de juros local como sua principal oportunidade de investimento, antecipando movimentos relevantes nos ativos brasileiros. Em relatório divulgado, o banco avalia que os juros carregam prêmios elevados em relação aos fundamentos macroeconômicos e podem apresentar forte fechamento – ou seja, queda – se o resultado eleitoral for interpretado pelo mercado como favorável a uma maior disciplina fiscal. Essa assimetria é vista como a mais atrativa no momento, mais do que a possibilidade de abertura das taxas em um cenário fiscal negativo, que o banco estima ser de menor magnitude.

Juros em foco: a aposta na curva de DI

O Goldman Sachs concentra sua preferência em posições aplicadas no miolo da curva de DI, apostando na queda das taxas de juros intermediárias. A escolha se justifica pela estrutura da dívida pública brasileira, com mais da metade indexada à Selic e um prazo médio relativamente curto, o que torna o custo financeiro do governo sensível a variações na taxa básica. Em um cenário de melhora fiscal pós-eleição, o banco estima uma economia acumulada com despesas financeiras entre 2 e 3,7 pontos percentuais do PIB. Atualmente, os modelos do Goldman Sachs apontam um prêmio residual médio de cerca de 80 pontos-base nos vértices de dois a dez anos da curva de DI, além do que é explicado por inflação, crescimento, fiscal e fatores externos. Um resultado eleitoral favorável ao mercado poderia catalisar a retirada desse prêmio.

Câmbio e Bolsa: cenários de R$ 4,80 e ações domésticas

Para o câmbio, o Goldman Sachs projeta o dólar a R$ 4,80 em um cenário fiscal positivo, compatível com a eliminação completa do prêmio fiscal residual de 2024. Em um cenário de melhora fiscal mais robusta e ambiente externo favorável, haveria espaço para valorização adicional, com uma faixa de R$ 4,50 a R$ 4,80 considerada plausível. Em contrapartida, uma deterioração fiscal poderia levar o dólar a níveis entre R$ 5,40 e R$ 5,80. O banco, no entanto, ressalta que movimentos cambiais pós-primeiro turno podem ser voláteis e não necessariamente duradouros, com o mercado rapidamente passando a cobrar nomes para a equipe econômica e implementação de políticas.

Na Bolsa, o banco vê oportunidades, especialmente fora das empresas exportadoras de commodities. Ações domésticas e sensíveis aos juros, que apresentavam desempenho estável ou em queda no acumulado do ano, são vistas como atraentes. Negociadas a múltiplos atrativos, essas empresas podem se beneficiar de uma eventual queda nas taxas de juros, que reduziria o custo de capital e aumentaria o poder de compra do consumidor. Estruturas de call spread de curto prazo em índices também são apontadas como formas de posicionamento para um rali eleitoral.

A volatilidade eleitoral e a decisão fiscal

O Goldman Sachs relembra que, historicamente, os movimentos cambiais e de mercado após o primeiro turno eleitoral podem ser significativos, mas a sustentabilidade desses movimentos depende da capacidade do governo eleito de implementar políticas fiscais críveis. Em eleições passadas, o Ibovespa e o MSCI Brazil apresentaram variações entre os turnos, mas os ganhos mais expressivos ocorreram nos meses seguintes, condicionados às políticas efetivamente implementadas. Em 2006 e 2018, por exemplo, as ações brasileiras acumularam altas entre 10% e 20% nos seis meses posteriores. Contudo, em 2022, o movimento foi inverso, com uma correção de cerca de 15%, evidenciando que a política pós-eleitoral é o fator determinante.

Estrangeiros e crédito: o que observar

Embora as entradas de capital estrangeiro tenham aumentado recentemente, os fluxos acumulados ainda são baixos em comparação com ciclos eleitorais anteriores. O Goldman Sachs sugere que isso pode mudar após a diminuição da incerteza eleitoral, especialmente se o resultado for interpretado como positivo pelo mercado, abrindo caminho para uma segunda etapa de valorização. No crédito soberano, contudo, a análise é menos otimista. Os spreads dos títulos brasileiros em dólares estão historicamente apertados, com pouco espaço para compressão adicional e maior risco de abertura caso o resultado das urnas seja desfavorável. A mensagem central é que a eleição é o gatilho, mas a disciplina fiscal é o que definirá a trajetória dos ativos no médio prazo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney