A recente melhora nas condições hidrológicas e uma demanda por eletricidade ligeiramente mais fraca trouxeram um alívio temporário aos preços de energia no Brasil. Contudo, o cenário para os próximos anos, especialmente a partir de 2027, permanece mais resistente, apresentando uma oportunidade particular para geradoras com maior volume de energia ainda não contratado. É nesse contexto que o Goldman Sachs, em relatório recente sobre o setor elétrico brasileiro, destaca o potencial de valorização de empresas como Axia Energia e Copel.

Os analistas do banco observam que, enquanto os contratos futuros de energia para 2026 viram uma queda significativa, caindo para uma média de R$ 210 por megawatt-hora (MWh) de R$ 255/MWh, os preços para 2027 mantiveram-se praticamente estáveis, em torno de R$ 270/MWh. Essa divergência sinaliza que o mercado ainda reluta em precificar de forma definitiva a melhora recente nas chuvas, mantendo uma postura de cautela em relação ao futuro. A projeção do Goldman Sachs para 2027 é de R$ 220/MWh, uma diferença considerável que pode se traduzir em ganhos substanciais para companhias como Axia e Copel, que possuem flexibilidade para negociar sua energia a preços de mercado.

O Cenário de Médio Prazo e a Hidrologia

A principal variável que moldará os preços de energia no médio prazo, segundo o Goldman Sachs, é o comportamento das chuvas durante o período úmido, que se estende de outubro a março. A CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) projeta para este ano uma Energia Natural Afluente (ENA) em torno de 88% da média de longo prazo, um patamar superior à mediana dos últimos dez anos (aproximadamente 79%) e à média histórica (83%). Essa melhora foi impulsionada pelas afluências acima da média durante o período seco, especialmente entre julho e setembro. Para os meses seguintes, a expectativa de chuvas também se mantém próxima da média dos dez anos anteriores. Essa recuperação hidrológica é crucial para o Brasil, dada a forte dependência das usinas hidrelétricas na matriz energética do país. No entanto, a visibilidade sobre o regime de chuvas a partir do último trimestre do ano ainda é limitada.

El Niño e a Incerteza de 2027

A persistência da incerteza em relação ao comportamento das chuvas é o que explica a resistência dos contratos de energia para 2027. O Goldman Sachs aponta que ainda não está claro qual será o impacto do fenômeno El Niño sobre os reservatórios do Sudeste, que concentram cerca de 70% da capacidade de armazenamento do país. Esse período, que abrange o quarto trimestre de 2026 e o primeiro de 2027, coincide com a estação úmida brasileira e com a fase de pico do El Niño. Essa imprevisibilidade é compartilhada por consultores e operadores do mercado de energia, o que justifica a cautela na precificação dos contratos de longo prazo. Paralelamente, a demanda por eletricidade também apresenta dinâmicas complexas. Enquanto projeções anteriores indicavam um crescimento moderado, novas estimativas apontam para um aumento mais expressivo no quarto trimestre, influenciado por expectativas de temperaturas mais elevadas associadas ao El Niño.

Implicações para Axia e Copel

O ponto central da análise do Goldman Sachs para o mercado acionário reside na resiliência dos preços futuros de energia para 2027. Com os contratos negociados em patamares significativamente superiores às projeções do banco, empresas como Axia Energia e Copel, que possuem uma parcela considerável de sua energia ainda a ser comercializada, encontram-se em uma posição vantajosa. Elas têm a oportunidade de vender volumes futuros a preços mais elevados do que os estimados pelo banco, o que pode impulsionar seus resultados. O banco também projeta dividend yields de dois dígitos para ambas as companhias nos próximos anos, adicionando um atrativo extra para os investidores. A partir de 2030, o Goldman Sachs estima um custo marginal de expansão do sistema em torno de R$ 245/MWh, um patamar que reflete a estrutura de custos de longo prazo do setor.

Perguntas em Aberto e Perspectivas Futuras

Apesar das oportunidades identificadas, o setor elétrico brasileiro ainda navega em um mar de incertezas. A magnitude da melhora hidrológica e sua sustentação ao longo da estação úmida serão determinantes para a trajetória dos preços de energia. Se as chuvas se mantiverem em níveis elevados, a pressão de baixa sobre os preços poderá se intensificar. Por outro lado, o mercado continua a precificar o risco associado ao El Niño e a um potencial aumento no consumo de eletricidade, como evidenciado pela resistência dos contratos de 2027. A capacidade das empresas em gerenciar seus portfólios de contratação e a volatilidade dos preços será fundamental para o desempenho futuro.

A análise do Goldman Sachs oferece um vislumbre das complexidades do mercado de energia brasileiro, onde a dinâmica entre oferta hídrica, demanda e fenômenos climáticos molda as perspectivas de curto e longo prazo para investidores e empresas do setor. Acompanhar a evolução das chuvas e os desdobramentos do El Niño será crucial para entender a real dimensão das oportunidades em jogo. Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney