Golpes cibernéticos continuam a drenar bilhões de dólares dos americanos, com uma taxa alarmantemente baixa de recuperação de fundos. Uma investigação do Comitê Econômico Conjunto do Congresso dos EUA, liderada pela senadora democrata Maggie Hassan e pelo deputado democrata Don Beyer, revelou que o governo federal não possui um sistema unificado para contabilizar o montante de dinheiro apreendido em operações de fraude internacionais nem para determinar quanto foi devolvido às vítimas. A escala do problema é vasta, com americanos reportando perdas de quase US$ 18 bilhões no último ano, o equivalente a mais de US$ 2 milhões por hora, segundo dados do FBI. Muitas vítimas sequer chegam a registrar o crime, o que sugere que o número real de perdas pode ser ainda maior. A falta de uma estratégia federal coesa e de incentivos claros para o setor privado tem permitido que organizações criminosas transnacionais explorem tecnologias, incluindo inteligência artificial, para perpetrar fraudes em larga escala contra cidadãos americanos, com consequências devastadoras.
Falta de Estratégia e Coordenação Governamental
A investigação, que se baseou em reportagens do Associated Press e FRONTLINE, destacou a dificuldade intrínseca que as vítimas de golpes enfrentam para reaver seus bens, mesmo diante de anúncios de apreensões por parte de diversas agências governamentais. O FBI informou ter devolvido US$ 336 milhões a vítimas em 2025. Já a Federal Trade Commission (FTC) retornou US$ 1,83 bilhão no ano fiscal de 2025, mas não conseguiu isolar quanto desse valor provinha especificamente de fraudes internacionais. O Serviço Secreto dos EUA recuperou mais de US$ 770 milhões em ativos fraudulentos nos anos fiscais de 2024 e 2025, embora esses fundos tenham sido originados de uma variedade de esquemas. O Departamento de Estado, por sua vez, indicou que agências estrangeiras apoiadas pelos EUA apreenderam valores na casa das centenas de milhões de dólares, mas direcionou o Congresso a buscar detalhes junto a outros departamentos. O relatório aponta que mesmo com a expansão das redes criminosas para novos países, cortes no orçamento do Departamento de Estado levaram à eliminação de programas anti-fraude, como um em Bangladesh, que treinava a polícia local em investigações de cibercrime. Bangladesh é identificado como um centro emergente para operações de fraude globais.
O Papel do Setor Privado e a Ausência de Responsabilização
O relatório do Congresso recomenda a aprovação de legislação pendente que estabeleça uma estratégia federal unificada para combater golpes e crie um ponto central para que vítimas reportem perdas e busquem auxílio. A Casa Branca também tem defendido uma maior coordenação federal. No entanto, a análise revela uma lacuna significativa na participação e responsabilização do setor privado. Autoridades do Departamento de Justiça sugeriram que empresas privadas deveriam focar mais na prevenção de fraudes, mas reguladores e legisladores americanos não criaram, até o momento, incentivos claros para que isso ocorra. Em contraste com a União Europeia (com 27 nações), o Reino Unido, a Austrália e Singapura, os Estados Unidos não estabeleceram mecanismos para responsabilizar empresas de tecnologia, telecomunicações ou serviços financeiros por falhas em proteger consumidores de golpes. A ausência de uma legislação robusta, como a que existe em outras jurisdições, deixa as empresas com pouca pressão para investir em medidas de segurança mais eficazes.
Progresso Insuficiente e a Busca por Prevenção Duradoura
Kate Griffin, diretora do programa de segurança financeira do Aspen Institute, reconhece progressos importantes, mas ressalta que os EUA ainda carecem de uma "prevenção de golpes duradoura e sustentável". A falta de redução na vitimização, segundo ela, demonstra que as medidas atuais são insuficientes. A colaboração entre agências governamentais e o setor privado permanece fragmentada e voluntária, o que limita sua eficácia. A crescente sofisticação das táticas de fraude, impulsionada em parte pela IA, exige uma resposta mais coordenada e proativa. A ausência de um quadro regulatório claro que force a ação das empresas privadas, aliada a uma contínua falta de recursos e coordenação dentro do próprio governo, perpetua um ciclo de perdas financeiras para milhões de americanos. A necessidade de uma estratégia nacional robusta, que inclua responsabilização clara para todas as partes envolvidas, torna-se cada vez mais urgente.
O desafio imposto pelas organizações criminosas transnacionais que exploram tecnologias modernas para fraudar cidadãos americanos exige uma resposta multifacetada. A legislação pendente no Congresso pode ser um passo crucial, mas a implementação efetiva e a adaptação contínua às novas ameaças cibernéticas serão fundamentais para proteger os consumidores e mitigar os bilhões em perdas. A colaboração internacional e o compartilhamento de melhores práticas também se mostram essenciais para desmantelar as redes de fraude globais.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company


