O Home Office do Reino Unido formalizou a contratação das consultorias Deloitte e PA Consulting em acordos que somam até £350 milhões. Os contratos, voltados para serviços de dados e análise, foram firmados apesar de uma política governamental recente que exige controle rigoroso sobre o uso de consultores externos no setor público. A Deloitte garantiu um acordo de quatro anos avaliado em £200 milhões, enquanto a PA Consulting assegurou até £150 milhões pelo mesmo período e escopo de trabalho.

Este movimento coloca em xeque a eficácia das diretrizes anunciadas pelo governo em novembro de 2024, que estabeleceram metas ambiciosas para reduzir desperdícios e economizar £1,2 bilhão até 2026. A estratégia previa supervisão ministerial obrigatória para qualquer gasto superior a £600 mil ou contratos com duração superior a nove meses. Até o momento, o Home Office não esclareceu se os novos acordos passaram pelos crivos exigidos ou por que foram autorizados diante das restrições vigentes.

O abismo entre a governança e a prática

A dificuldade do governo britânico em conter gastos com consultorias não é um fenômeno isolado, mas sim um reflexo de uma estrutura de contratação que, segundo órgãos de controle, carece de transparência. O National Audit Office apontou recentemente que o Tesouro britânico não possui dados abrangentes sobre o fluxo de pagamentos a consultores. Essa ausência de visibilidade dificulta o monitoramento de metas de eficiência e cria um ambiente onde as diretrizes do Cabinet Office são frequentemente ignoradas pelos diversos departamentos.

O Public Accounts Committee (PAC) tem sido um crítico constante dessa inércia. Em março, o comitê destacou que a falta de conformidade com as diretrizes de compras é sistêmica e não está sendo devidamente auditada. A demanda por um detalhamento minucioso dos gastos por departamento e por tipo de serviço reflete a urgência em entender por que o Estado continua a terceirizar funções que, teoricamente, deveriam estar sob o domínio da administração pública.

O custo da dependência tecnológica

A dependência de consultorias privadas é frequentemente justificada pela necessidade de competências digitais que o governo não consegue reter. No entanto, o Science, Innovation and Technology Committee argumenta que essa estratégia é um obstáculo à transformação digital. Dados indicam que o custo de um contratado externo no governo central é três vezes superior ao de um servidor público, com os terceirizados representando cerca de 40% dos custos de pessoal, apesar de ocuparem apenas 18% das vagas.

Essa dinâmica cria um ciclo vicioso onde a falta de talentos internos força a contratação de consultores, o que, por sua vez, consome o orçamento que poderia ser investido na capacitação e retenção de servidores especializados. A ausência de uma definição clara sobre o que constitui um papel tecnológico no serviço público torna ainda mais difícil a execução do plano de ter 10% da força de trabalho em funções digitais até 2030.

Desafios para a transformação institucional

As implicações dessa dependência vão além da questão financeira. A falta de foco e de accountability no topo da hierarquia administrativa tem sido citada como o principal entrave para a eficiência digital. Ao terceirizar a execução de projetos estratégicos, o Estado corre o risco de perder o conhecimento crítico necessário para gerir suas próprias infraestruturas, tornando-se refém das consultorias para a manutenção de sistemas essenciais.

Para o ecossistema de tecnologia, o caso britânico serve como alerta sobre os limites da terceirização em áreas de alta complexidade. A transição de um modelo baseado em contratos temporários para a construção de uma força de trabalho interna qualificada exige mais do que diretrizes de corte de gastos; requer uma mudança na cultura de gestão e na valorização das carreiras técnicas dentro do Estado.

Perspectivas e incertezas

O que permanece incerto é se a pressão dos comitês de contas públicas será suficiente para forçar um redirecionamento nas estratégias de procurement. Sem uma mudança na forma como o governo monitora e justifica seus gastos, a promessa de economia corre o risco de permanecer apenas no papel.

Acompanhar a resposta do Home Office e a evolução dos gastos nos próximos trimestres será fundamental para entender se o governo conseguirá, de fato, internalizar competências digitais ou se a dependência das consultorias se tornará um traço permanente de sua infraestrutura tecnológica. Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Register