O Governo de Minas Gerais decidiu tornar público o preço mínimo de R$ 47,23 por ação na oferta de privatização da Copasa. A medida, que rompe o sigilo mantido até então, visa destravar o processo de escolha de um sócio estratégico para a companhia de saneamento após a rodada inicial de ofertas, que contou com lances da Equatorial Energia e de um consórcio liderado pela Aegea, ter ficado abaixo das expectativas governamentais.

Segundo informações apuradas pelo Brazil Journal, o valor fixado representa um desconto de 7% em relação ao fechamento do mercado no pregão anterior e situa-se 20% abaixo da máxima histórica atingida em abril. A decisão de abrir o número, originalmente restrito a um pequeno grupo de gestores, reflete a urgência do Estado em garantir um âncora para a transição operacional da estatal.

O dilema da precificação de estatais

A estratégia de privatização via oferta pública com preço mínimo secreto tem se tornado um padrão no Brasil, replicando modelos utilizados em casos como Eletrobras e Sabesp. O desafio central reside na divergência entre a expectativa do mercado, que precifica a empresa considerando as eficiências futuras pós-privatização, e a avaliação do investidor estratégico, que assume obrigações de longo prazo e compromissos de capital intensivo.

No caso da Copasa, a valorização superior a 100% das ações nos últimos 12 meses, impulsionada pela perspectiva da desestatização, criou um cenário de alta volatilidade. O governo mineiro encontra-se em uma posição delicada: precificar abaixo do mercado atrai críticas políticas de setores contrários à venda, enquanto um valor excessivamente rigoroso pode afastar interessados e inviabilizar a entrada de um sócio com capacidade de execução.

Mecanismos de controle e lock-up

O investidor de referência na Copasa terá responsabilidades contratuais significativas, incluindo a aquisição de 30% da companhia e obrigações rígidas de permanência no negócio. O modelo exige um lock-up de 100% das ações por quatro anos, estendendo-se para 50% até 2033 ou até a universalização dos serviços de saneamento, o que eleva a exigência de capital e a cautela dos grandes players do setor.

Sem a presença de um sócio âncora, o governo temia que o valor da companhia sofresse pressão vendedora no mercado aberto, prejudicando a arrecadação total. A estrutura atual, coordenada por instituições como BTG Pactual, Itaú BBA e Bank of America, busca equilibrar a necessidade de agilidade operacional com a segurança jurídica necessária para evitar questionamentos de órgãos de controle.

Tensões regulatórias e políticas

A experiência recente com a Sabesp demonstra que o deságio em relação ao preço de tela pode servir como munição política, levando a questionamentos em tribunais de contas. A gestão de Mateus Simões tenta, portanto, mitigar riscos ao conferir maior transparência ao processo de precificação, na tentativa de sinalizar ao mercado que o valor de R$ 47,23 é o piso técnico necessário para viabilizar a transição.

Para os investidores, a definição do player estratégico é o fator determinante para a nova precificação da ação. A entrada de um grupo com expertise operacional comprovada, como a Aegea ou a Equatorial, altera fundamentalmente a tese de investimento, tornando o ativo mais atrativo a longo prazo, apesar das incertezas imediatas sobre o sucesso da oferta.

Perspectivas para o saneamento

O sucesso desta rodada de ofertas dirá muito sobre o apetite dos investidores por ativos de saneamento sob novas estruturas de governança. A capacidade de Minas Gerais em conduzir este processo sem percalços adicionais será observada de perto por outros governos estaduais que planejam movimentos semelhantes em suas próprias companhias de serviços públicos.

A incerteza permanece sobre como o mercado reagirá à nova transparência e se os interessados ajustarão suas propostas para atender ao piso revelado. O desenrolar dos próximos dias definirá se a privatização da Copasa seguirá o curso esperado ou se exigirá novos ajustes na modelagem financeira e estratégica do governo. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech