O governo federal vai destinar R$ 4 bilhões para financiar a indústria de fertilizantes, um movimento para endereçar uma das maiores vulnerabilidades estratégicas do agronegócio brasileiro. O anúncio foi feito pelo vice-presidente Geraldo Alckmin durante o 13º Congresso Brasileiro de Fertilizantes, em São Paulo.

O montante é parte do programa Brasil Soberano 3, uma linha de R$ 18,5 bilhões operada pelo BNDES. A tese é clara: usar o capital público para reduzir a asfixiante dependência do país por insumos importados, um risco exposto de forma dramática por crises geopolíticas recentes. A linha de crédito é o instrumento mais recente de uma política industrial que busca, na prática, garantir que a potência agrícola não seja paralisada por fatores externos.

O xadrez da autossuficiência

A iniciativa não é um ato isolado. Ela se soma ao Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), que estabelece uma meta gradual de conteúdo nacional, começando em 2% em 2027 e mirando 10% até 2037. Os números, embora modestos, sinalizam uma visão de longo prazo. A leitura aqui é que o governo percebe que o crédito, por si só, não constrói fábricas. É preciso um ecossistema de incentivos e garantias, incluindo a suspensão de tributos como o Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM), que deve gerar um crédito tributário de R$ 1 bilhão ao ano para o setor.

Do crédito à produção

O verdadeiro desafio, contudo, vai além do financeiro. A produção de nitrogenados, por exemplo, depende de uma maior oferta de gás natural, um gargalo histórico. Alckmin mencionou esforços para destravar projetos como a unidade da Petrobras em Três Lagoas (MS) e resolver pendências para a exploração de potássio em Autazes (AM). Esses projetos são complexos, caros e de longa maturação. O financiamento do BNDES pode acelerar decisões de investimento, mas a execução e a superação de barreiras regulatórias e de infraestrutura serão o verdadeiro teste para a estratégia.

A aposta de R$ 4 bilhões é um sinal importante para o setor. Contudo, a transição de um dos maiores importadores para um produtor relevante de fertilizantes é uma maratona industrial, não uma corrida de cem metros financiada a crédito. O sucesso dependerá da execução de projetos complexos e da sustentabilidade dessas políticas para além do ciclo político atual.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times