A marca americana de vestuário de escalada Gramicci inaugurou sua segunda loja em Londres, localizada em Netil Lane, com um projeto arquitetônico que prioriza a identidade visual lúdica. O elemento central do espaço é uma escultura de 2,5 metros de altura representando um par de shorts listrados, criada pela agência Steep Learning Group para atuar como mascote do estabelecimento.

A peça, que homenageia os modelos de bouldering da marca, foi produzida artesanalmente com blocos de isopor e revestida com Jesmonite, um composto de gesso e resina. Segundo os fundadores da agência, Filip Tyden e Erik Hedman, a intenção foi emular a estética de ícones comerciais clássicos, como uma rosquinha gigante em frente a uma loja de doces, estabelecendo uma conexão imediata com a herança da marca na Califórnia das décadas de 80 e 90.

A estratégia do design lúdico

O uso de elementos esculturais gigantes no varejo não é uma novidade absoluta, mas a execução da Gramicci reflete uma tendência crescente de marcas que buscam criar pontos de ancoragem físicos em um mercado cada vez mais digitalizado. Ao optar por uma peça que possui imperfeições visíveis de fabricação manual, a marca se afasta da perfeição estéril de renderizações 3D, buscando uma conexão mais autêntica e tátil com o consumidor.

Essa abordagem de design, que aposta no cartoonish como forma de engajamento, serve para humanizar o espaço comercial. A escultura, além de sua função estética, funciona como um elemento de sinalização urbana que atrai a atenção de quem circula pela região, transformando a loja em um destino que vai além da simples transação comercial.

Flexibilidade e mobiliário modular

Para complementar a estrutura, o designer Dom Johnson desenvolveu um mobiliário modular que permite a reconfiguração constante do ambiente. Utilizando madeira compensada de abeto Douglas, os expositores foram projetados para mimetizar a estética de caixotes plásticos industriais, reforçando a conexão da marca com a cultura de skate e surf da Califórnia dos anos 90.

A versatilidade é a palavra-chave do projeto, com peças que podem atuar como bancos, expositores ou até suportes para bicicletas, dependendo da necessidade dos eventos realizados no local. Esse sistema, descrito como um grande "Tetris", possibilita que a loja transite entre cinema, espaço de varejo e workshop de escalada sem perder a consistência visual.

Conexão com o DNA da marca

O nível do mezanino reforça a identidade outdoor da Gramicci com a instalação de um muro de escalada, permitindo que os clientes testem as roupas em condições reais de uso. Essa integração entre o produto e a experiência de marca é um movimento estratégico para empresas que vendem estilo de vida, transformando o ponto de venda em um hub de comunidade.

A escolha de materiais, como a madeira com grãos pronunciados, também comunica a transitoriedade e a autenticidade que a marca deseja transmitir. Ao incorporar painéis de parede inclinados feitos de sobras de madeira, o design reitera o caráter momentâneo e dinâmico que permeia toda a concepção da loja em Netil Lane.

Perspectivas para o varejo físico

O futuro desse tipo de ocupação comercial permanece em aberto, especialmente em um cenário onde o varejo físico compete com a conveniência do e-commerce. A aposta da Gramicci sugere que o valor do espaço físico reside na capacidade de criar experiências memoráveis e cenários que incentivem a interação social.

Observar como essa flexibilidade será mantida ao longo do tempo será fundamental para entender se o modelo de "Tetris espacial" é sustentável para a rotina de uma loja. A capacidade de adaptação será o teste definitivo para o sucesso dessa proposta arquitetônica no competitivo mercado londrino.

O projeto demonstra que a identidade de uma marca pode ser materializada de formas inusitadas, desde que haja um alinhamento entre a narrativa histórica e a funcionalidade do espaço. A loja em Netil Lane não apenas vende roupas, mas convida o público a habitar o universo da Gramicci.

Com reportagem de Dezeen

Source · Dezeen