O caminho para que grandes corporações colham os frutos da inteligência artificial passa menos pela tecnologia em si e mais pela capacidade humana de abraçá-la. Em um cenário onde a IA avança a passos largos, muitas empresas do porte da Fortune 500 ainda lutam para encontrar um retorno sobre o investimento (ROI) tangível. A análise de especialistas reunidos no Fortune AIQ Summit, realizado na Bolsa de Valores de Nova York, aponta para um fator crítico: a mentalidade e a preparação das pessoas.
O evento destacou que as empresas que se destacam na adoção de IA, classificadas como "Pacesetters" no Índice de Maturidade de IA da ServiceNow, investem maciçamente em seus colaboradores. Segundo Diana David, futurista da ServiceNow, 57% dessas empresas líderes investem em aprimoramento de habilidades em IA, contra apenas 4% das demais. A diferença se estende à atração e retenção de talentos de IA, com 68% dos "Pacesetters" possuindo planos claros, comparados a meros 10% do restante.
O Fator Humano: Superando a 'Impotência Aprendida'
A futurista Amy Webb ressalta que a dificuldade em obter ROI com IA em larga escala se deve, em grande parte, à falta de investimento em treinamento. Ela descreve um fenômeno de "impotência aprendida" em grandes organizações, onde a dependência excessiva de ferramentas pode levar à perda de habilidades básicas, comparável a motoristas que não conseguem mais digitar um endereço em GPS sem assistência. Drew Holler, diretor de RH da construtora Lennar, concorda, mas enfatiza a responsabilidade mútua: a empresa oferece as ferramentas e treinamentos, mas o indivíduo precisa buscar ativamente o autodesenvolvimento.
Flexibilidade e Adaptabilidade como Chaves Estratégicas
Mais do que a expertise técnica nativa em IA, a flexibilidade e a adaptabilidade emergem como as competências mais valiosas na era da inteligência artificial. "Não se trata de ser nativo em IA, mas de ser flexível", afirma Webb. Ela sugere que as empresas precisam criar mecanismos para fomentar essa maleabilidade organizacional. Danielle Gonzalez, diretora de pessoas da Palo Alto Networks, reforça a necessidade de "agência" nos colaboradores, buscando indivíduos capazes não apenas de aprender rapidamente, mas também de desaprender conceitos obsoletos para abrir espaço ao novo. A empresa, por exemplo, utiliza entrevistas observacionais e hackathons para avaliar candidatos, focando na resolução de problemas em vez de narrativas de conquistas passadas.
Aversão ao Risco vs. Inovação
Curiosamente, em meio a discussões sobre "IA descontrolada", os executivos no AIQ Summit demonstraram maior foco na implementação bem-sucedida do que em governança. Uma visão predominante foi que a ênfase excessiva em riscos, muitas vezes impulsionada por CSOs (Chief Security Officers) e advogados corporativos, pode ser um obstáculo ao ROI. Webb aponta um "descompasso significativo" entre CEOs e seus conselhos, e os CSOs ou diretores de risco, que priorizam segurança e estabilidade. Ela defende que esses executivos de risco tenham um papel na formulação da estratégia de IA, mas que aprendam a "parar de dizer 'não' antes de dizer 'conte-me mais'", necessitando de incentivos para não se tornarem bloqueadores.
O Futuro do SaaS e a Realidade Corporativa
As preocupações com uma "SaaSpocalypse" (o colapso do mercado de Software como Serviço) parecem exageradas. Michelle Kwon, COO da startup de IA Runway, admitiu que, apesar de ser uma empresa "AI-native", ela ainda utiliza softwares SaaS tradicionais para funções como sistemas de pagamento e conformidade de RH, pois não é o melhor uso de seus recursos. A Runway foca em desenvolver IA com impacto direto no faturamento, como um agente que planeja e executa campanhas de publicidade em vídeo online. A adoção de sistemas como o Workday por outras empresas de tecnologia de ponta sugere que nem mesmo as companhias mais inovadoras buscam substituir todos os seus softwares corporativos por soluções internas. Portanto, o mercado de SaaS parece longe do fim.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





